A visão masculina da gestação e parto

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Quando comecei a escrever sobre este tema pensei, pensei e pensei… Escrevi dois textos gigantes e não era o que eu queria dizer. Até que resolvi perguntar pro meu marido como ele descreveria essa importância da participação dele no parto da nossa menina. E como meu objetivo é escrever este texto de forma que, principalmente vocês pais, sintam-se confortáveis, nada melhor do que pedir licença à vocês e deixar que meu marido fale por mim desta vez:

Um parto natural domiciliar é a coisa mais anti-natural das coisas naturais que podem ocorrer na vida de um homem.

Escrevo este texto sentado na cama, com a minha filha Maria Alice deitada ao meu lado, com o dedo indicador na boca e me olhando com se soubesse sobre o que estou escrevendo. Não sabe, mas nem por isso ela é menos inspiradora. E olhando pra essa menina de cinco meses eu agora entendo o porquê de todo o medo que me inundou quando esse projeto começou. Ela é linda, exatamente como a mãe, e eu não me perdoaria se não pudesse dar a elas todo o suporte que estivesse ao meu alcance.

A ideia do parto domiciliar não nasceu na minha cabeça. Foi uma ideia que rondava os pensamentos da minha esposa Juliana e que eu, por puro desespero de se tornar realidade, não alimentava e nem mesmo discutia. Aí meu primeiro erro capital: Deixei de lado o assunto pra ver se esfriava. Não esfriou.

Aqui eu preciso fazer um parêntesis: Apesar de ter participado e vivido o parto natural domiciliar, eu não sou um ativista. Não queimo sutiãs nem cuecas. Acredito no bom senso, na boa vontade dos médicos, na necessidade dos hospitais e de que na sociedade que vivemos, adoramos as máquinas de lavar, os micro-ondas, o facebook, os bolos prontos, mas queremos parir como no tempo das nossas avós, e no primeiro sinal de febre corremos com nossos pequenos pro PS e mandamos bala no antibiótico. Minha opinião particular, se isso tem algum valor, é que todos somos livres pra escolher viver como desejamos, isso inclui o respeito no momento do parto, seja ele dentro do hospital, na sua residência, dentro da banheira ou no jardim, debaixo da bananeira. E foi exatamente isso que aconteceu conosco aqui em casa.

Olhando para trás, tenho certeza de que não fui o melhor companheiro para minhas meninas nessa viagem, mas era o que elas tinham pro momento. E aqui eu queria deixar meu primeiro conselho: Você vai servir, não porque é o melhor, mas porque é o que tem pra hoje. Então não se compare com os caras que dançam com as mulheres, que tocam cítara, que fazem massagens xantônicas nos pontos neurais, que conversam horas e horas com a barriga das companheiras e com seus respectivos bebês. Tudo isso pode ser importante, mas fundamental mesmo é você estar lá. Segurar na mão dela e, do seu jeito, mostrar pra ela que você comprou a ideia e que tudo vai dar certo (mesmo que você esteja se borrando de medo por dentro).

Normalmente o homem tem um pensamento cartesiano, vivemos e morremos cumprindo ordens e organizando as coisas, resolvendo problemas e encontrando soluções, sempre com um alvo, um objetivo, uma meta. No momento do parto é a mesma coisa. Nosso objetivo é o nascimento do bebê com saúde, segurança e saber que nossa companheira está bem, aí vem um pedido que eu faço para as mulheres que estão lendo estas linhas: Nessa hora nos ajudem e sejam claras, tipo: “Eu me sentiria muito melhor, se você fizesse ISSO pra mim”. Nem que ISSO, seja pegar um pedaço da lua e trazer pra hora da janta. Conversem sobre qual papel você espera que seu companheiro desempenhe no momento do parto. Algumas mulheres querem que o homem esteja o tempo todo ao lado delas segurando sua mão, outras preferem que ele faça uma massagem, outras ainda que ele cuide do outro filho, se for o caso. O importante é que vocês saibam exatamente o que fazer e como agir, porque na hora, acreditem em mim, não vai dar pra combinar.

Outra coisa: não importa o tamanho do seu bebê, o quanto vocês se prepararam pra essa hora ou quanto exercício você fez. Vai doer, e vai doer um monte. E na hora da contração essa dor é esperada e necessária, e por mais que pareça um contrassenso, essa dor para a mulher é extremamente recompensadora. Talvez não no momento da expulsão, mas quando você pegar o bebê no colo tudo vai passar. Não me peça pra explicar isso. Eu também não entendo. Só sei que é assim.

O homem, em algum momento do parto pode se sentir impotente e talvez até inútil. É assim mesmo. Vai ter você, uma enfermeira, uma auxiliar, uma doula, sua mulher e seu bebê (em alguns casos tem até fotógrafo). É muita gente junta pra garantir um parto seguro. Por isso eu digo: A gestação é um processo que dura nove meses e culmina com o nascimento. Você tem todo este tempo pra ser importante. Vá as consultas o máximo possível, acompanhe, pergunte, se informe, esteja presente e se na hora do parto você se sentir um pouco inseguro eu tenho uma notícia pra você: é normal. (mulheres, deem uma ajuda pro coitado do seu marido e levantem a moral dele entre uma contração e outra).

Por último. Estejam preparados para o inesperado. Fazemos planos, sonhamos, imaginamos e trabalhamos para evitar surpresas, mas elas ocorrem o tempo todo. Se algum detalhe não saiu como vocês imaginaram, não se preocupem.

Um parto natural domiciliar é a coisa mais anti-natural das coisas naturais que podem ocorrer na vida de um homem, mas quando você vê o corpo da sua esposa trabalhando sozinho pra colocar aquele bebê no mundo e o estereótipo do quarto impecavelmente arrumado com velas, música, frutas e incenso onde tudo acontece em câmera lenta e com uma luz difusa se desfaz e você vê sua esposa sorrindo em meio a lágrimas e suor a ponto de desmaiar, e segura seu bebê sujo de sangue e vernix no colo ao lado do seu filho de quatro anos de pijamas e cabelos desgrenhados que chora junto com você, percebe que deveria ser assim mesmo. É a maneira que a natureza encontrou de nos juntar. É brutal, é intenso, é forte e é por isso que se chama parto natural.

O mais importante no final, depois de toda essa jornada é você poder olhar para o seu bebê deitado ao seu lado, com o indicador na boca te olhando como se soubesse o que você está escrevendo (E eu acho que sabe.)

Por: Leandro Silva, pai do Luís Gabriel de 4 anos e da Maria Alice de 5 meses

Assinatura_JulianaSilva

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