Indicações falsas e reais de cesariana

Kamila_Cesarea

O século XVIII trouxe consigo a entrada dos homens no ambiente que antes era permeado apenas por mulheres, o quarto de parir. Essa nova figura do gênero masculino trouxe consigo a inclusão da tecnologia do parto e o domínio do corpo feminino pela classe obstétrica, que acreditava ser a única preparada para o evento do parto, devendo as mulheres ficarem submissas aos seus cuidados. Esse fato trouxe o aumento nas taxas de mortalidade materna e infantil tornando o parto um processo patológico aonde acreditava-se que para seu acontecimento deveria a mulher ficar hospitalizada.

A  primeira cesárea que se tem notícia ocorreu em 1500, em uma pequena cidade suíça chamada Sigershaufen, e foi realizada por um homem chamado Jacob Nufer, em sua própria esposa para aliviar o “sofrimento” do parto normal,  O nome “cesariana” teria vindo a partir da palavra ceasare, que significa “cortar”, desde então a cirurgia que deveria ser utilizada apenas em casos de real necessidade tornou se uma epidemia.

O Brasil é campeão no ranking mundial de césares e isso não é novidade, mas você sabe um dos principais fatores que contribui para a taxa de 84% de cirurgias no setor privado e 44% no setor público?  A falta de informação! É isso mesmo! A falta de conhecimento nos coloca na posição de aceitar tudo que nos é ofertado, afinal se você não tem conhecimento sobre um determinado assunto como discutir com alguém que se diz expert? Isso é o que acontece com muitas mulheres quando estão em uma situação de indicação de cesárea, especialmente as que desejaram durante a gestação ter um parto normal!

A cesárea é uma cirurgia de médio porte e, claro, como qualquer cirurgia tem riscos tanto para a mulher como para o bebê. Um estudo publicado em 2008 no American Journal of Obstetrics and Ginecology, apontou que a taxa de morte materna é dez vezes maior em uma cesárea que em um parto normal, porém quando bem indicada a cirurgia pode salvar vidas.

Sofrimento fetal, bebê sentado, útero invertido, bebê dormindo, bebê grande ou pequeno demais, falta de passagem e a campeã cordão enrolado no pescoço são as principais indicações de césares realizadas hoje em nosso país. Mas será que todas as indicações são reais?

Existem casos em que a cesárea é a forma mais segura de nascimento, por exemplo quando o cordão umbilical sai antes da cabeça do bebê podendo impedir o fluxo de oxigênio para ele, conhecido como prolapso de cordão, ou quando a placenta se descola do útero antes da hora do período expulsivo, também comprometendo a oferta de oxigênio para o bebê conhecido como descolamento prematuro da placenta, quando a placenta se desloca e bloqueia a saída do bebê, fenômeno conhecido como placenta prévia total (nesse caso entrar em trabalho de parto pode causar hemorragia e levar mulher e bebê a morte) ou quando o bebe está em posição córmica, ou seja lateralizado, durante o trabalho de parto (se for antes pode se tentar a manobra de versão cefálica externa que tenta colocar o bebê na posição correta) e por último a ruptura de vasa praevia, quando os vasos sanguíneos do cordão umbilical estão sem proteção e rompem- se causando hemorragia. Todas essas situações são indicações absolutas de cesárea.

O principal fator que devemos levar em consideração durante uma gestação e parto é o bem estar materno e fetal, com isso torna se necessário entender que cada caso é um caso, e se mãe e bebê estão bem e não há riscos para ambos, não há porque acelerar o parto. A monitorização da saúde do bebê e da mulher devem ser prioridade na assistência à gestação, parto e também pós parto. Situações como pressão alta, diabetes, presença de mecônio (coco do bebê na barriga da mãe) por exemplo, não são por si só indicações de cesárea e devem ser avaliadas caso a caso levando em consideração os outros possíveis fatores associados.

A única maneira de garantir que você não passará por uma cesárea desnecessária é tendo conhecimento sobre seu corpo e ter o acompanhamento de  profissionais que saibam e acreditem que as mulheres são capazes de parir. A união da evidência cientifica e da tecnologia devem estar empregadas para garantir a segurança de mãe e filho.

Assinatura_KamilaRocha

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