Manobra de Kristeller: como esse procedimento pode prejudicar a mãe e o bebê

Priscilla_Kristeller

Falar sobre a manobra de Kristeller significa falar sobre a cultura atual do nascimento, na qual a mulher é submetida a práticas obstétricas durante o trabalho de parto e parto para agilizar o nascimento do bebê a despeito da fisiologia do processo e do bem-estar materno e fetal.

Antes de mais nada, vamos entender o que é a manobra de Kristeller: a mulher em trabalho de parto chega ao período expulsivo, onde ela sente vontade involuntária e incontrolável de fazer força para que o bebê saia de dentro dela. Esse período pode ser mais rápido ou mais lento de acordo com uma série de fatores. A mulher é então colocada naquela cama nada confortável, de barriga para cima, com as pernas elevadas, parecendo um franguinho assado. Com o intuito de encurtar o expulsivo, o profissional faz a manobra de kristeller, onde a barriga da mulher é empurrada para baixo. Algumas pessoas empurram com as mãos, outras com os braços e até cotovelos e, pasmem, até com o joelho!

Tal manobra foi criada pelo ginecologista alemão Samuel Kristeller lá em 1867 (há apenas 149 anos!!!) após ele ter publicado um estudo falando sobre o que hoje chamam de toco-braçal, ou seja, a assistência manual de empurrar o bebê, com a intenção de massagear o fundo do útero para estimular as contrações e concomitantemente empurrar o bebê para o canal de parto. Na época em que criou essa manobra, trabalhava como médico voluntário para os pobres ajudando o povo judeu e durante toda a vida contribuiu muito na publicação de jornais médicos.

Os tratados de Obstetrícia, como por exemplo, o famoso Rezende, trazem a ideia criada por Kristeller como sendo um procedimento “inofensivo”, no entanto as evidências dizem o contrário e por isso, a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde e a própria Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia não recomendam essa manobra, uma vez que não consiste em boa-prática de saúde.

Os evidencias científicas apontam que, apesar do uso da manobra de kristeller ter como intenção encurtar o período de desprendimento do bebê, nem esse objetivo ela consegue atender. Como se não bastasse o próprio desconforto em si, de ter algum estranho apertando a barriga no momento da dor da contração, existem ainda esses seguintes fatores negativos:

Para a mulher:

  • Aumento das taxas de lacerações severas, incluindo o esfíncter anal;
  • Aumento das taxas de episiotomia (uma vez que ambas as técnicas são combinadas para acelerar o parto);
  • Aumento da dor perineal após o parto;
  • Dispareunia (dor durante a relação sexual);
  • Rotura uterina;
  • Descolamento de placenta;
  • Hemorragias;
  • Falta de ar e desmaios;
  • Embolia amniótica.

Para o bebê:

  • Cefalohematoma;
  • Fraturas do crânio;
  • Fraturas de clavícula;
  • Diminuição da oxigenação cerebral;
  • Ferimento da coluna vertebral.

Para diminuir o tempo de expulsão do bebê é inútil aplicar a manobra de kristeller, a melhor opção é dar liberdade de posição para a mãe, na qual a pelve se amplie e a força da gravidade contribua. Hospitais e profissionais que se recusam em permitir tal liberdade com intuito de praticar pressão no fundo do útero por rotina estão deliberadamente cometendo violência obstétrica.

O parto deve ser um momento de amor, realização, de alegria, satisfação e prazer! Qualquer prática que venha contra esses ideais deve ser interrompida. Sentir a dor das contrações é suficiente para parir, não é necessário sentir a dor da violência que pode deixar não apenas marcas físicas, mas também emocionais, por uma vida inteira!

Informe-se, descubra seus direitos, apodere-se deles e se empodere enquanto mulher digna de parir da maneira mais tranquila possível, resgatando a cultura natural do parto.

Imagem retirada de: www.elpartoesnuestro.es 

Assinatura_PriscillaTives

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