Episiotomia: ela é realmente necessária?

Priscilla_Episiotomia

 

Sempre que penso em parto normal, me vem à mente um processo extremamente natural, onde a mulher tem contrações estimuladas espontaneamente pelos hormônios que seu próprio corpo produz. Até que o colo dilata totalmente, a cabeça começa a coroar e se desprender após alguns puxos, vindo em seguida o corpinho até que todo o bebê está para fora, nos braços daquela que o carregou por cerca de 9 meses. Por último, nasce a placenta. Mas isso acontece porque sou parteira e é assim que vejo a grande maioria (porque mesmo nas gestações de baixo risco, encontramos “surpresas” nada agradáveis) das mulheres parindo seus bebês, de forma complexamente simples, sem drogas, sem “piques”, sem sofrimento, com muita determinação, paciência, amor e empoderamento.

Infelizmente, a grande maioria das pessoas não tem o privilégio de conhecer essa versão natural do parto por isso, quando pensam em parto normal imaginam, dentre tantas outras coisas que causam temor, a mutilação genital causada pela episiotomia. Não são poucas as pessoas que me perguntam, com os olhos cheios daquela expressão de inconformidade, “precisa mesmo do “piquezinho”” ou, o que para mim é pior, “mas no Parto Domiciliar vocês também fazem a episio, não é¿!” Como se fosse algo obrigatório!

Entendo a dúvida e imaginação de que a episio seja algo imprescindível, uma vez que vivemos num país que tem a cultura de cortar para fazer o bebê nascer. Além do Brasil ser campeão em cesáreas, conseguiu ser vencedor mundial no índice de episiotomia (cerca 94% entre 1995 e 1998). Mas essa vitória não é legal, porque a própria Organização Mundial da Saúde recomenda restringir a episio para apenas 10% dos partos. Atualmente, cerca de 60% das mulheres são submetidas à episiotomia em nosso país.

Então, para incitar a sua curiosidade e possível pesquisa para tomada de decisão a favor ou não da episiotomia, vou explicar algumas coisinhas:

  • Episiotomia-3Conceito
    A episiotomia é um corte, realizado com bisturi ou tesoura, na região do períneo (aquele espaço que há entre a vagina e o ânus), para ampliar o espaço da vagina e facilitar a saída do bebê. Quando a mulher se encontra no período expulsivo do trabalho de parto, o obstetra faz uma anestesia local no nervo pudendo e realiza o corte.

 

  • Resuminho Histórico
    Lá no século XVIII, o obstetra irlandês Sir Fielding Ould, introduziu a episiotomia para auxiliar no desprendimento do bebê em partos difíceis. Mas até o século XIX o procedimento não ganhou popularidade por causa das altas taxas de infecção e da falta de disponibilidade de anestesia.Quando o nascimento deixou de ser considerado um evento fisiológico e natural para ser entendido como um processo de doença, onde são “imprescindíveis” procedimentos médicos para prevenir mãe e bebê de lesões maiores, a episiotomia começou a ser utilizada em grande escala. Até que em 1920 o famigerado obstetra De Lee lançou um tratado onde recomendava que todas as primíparas (mulheres que estão parindo pela primeira vez) deveriam ser sistematicamente submetidas à episiotomia e ao fórceps (ferro para puxar o bebê do canal de parto). No entanto, tal recomendação não se justificou por evidencias científicas, apenas carregava o reflexo da percepção de que o corpo feminino era defeituoso e precisava de ajuda dos médicos para fazer a criança nascer. Esse pressuposto, apesar de não ter respaldo científico, tornou-se uma verdade incontestável que é repassado em tratados de Obstetrícia nos diversos países.A frequência das episiotomias foi aumentando a partir de vários fatores: 1) transferência do parto para o nível hospitalar, antes era comum o parto domiciliar por ser evento fisiológico e natural; 2) para diminuir o tempo de duração do período expulsivo, assim o médico daria conta de atender mais rapidamente cada um dos partos; 3) mulher rotineiramente passou a ser colocada em posição horizontal (deitada) para o nascimento do bebê, quando o ideal é que ela fique verticalizada;As mulheres começaram então a questionar a necessidade da episiotomia através de movimentos e campanhas pró-parto ativo. Foi quando, na década de 70, surgiram as primeiras pesquisas clínicas bem conduzidas. E pouco a pouco o número de episiotomias começou a reduzir, uma vez que as pesquisas mostram que o procedimento é mais prejudicial do que benéfico, pois causam: dor, edema, infecção, hematoma e dor na relação sexual, além de por si só, causarem um trauma perineal de segundo grau.
  • Indicações da Episiotomia
    Se você fizer uma busca séria das reais indicações da episiotomia, poderá chegar a afirmação da Drª Melania Amorin, sumidade em Medicina Baseada em Evidencias, “está bem claro que episiotomia de rotina DEVE ser evitada, não existem evidências sólidas corroborando QUALQUER indicação de episiotomia.O ideal é que não seja feita a episiotomia, porque ela pode causar dor, aumentar os gastos com analgésicos, de infecções, de dor durante a relação sexual, causar vergonha física e emocional na mulher. O fato é que a rotina médica da episio, faz com que o procedimento seja realizado, na grande maioria das vezes, de forma desnecessária e sem o consentimento das mulheres, o que implica em violação da integridade física que, para algumas, se compara a um estupro violento por causa do estado em que a vulva e o períneo se deformam.Por conta dessas “mutilações femininas” causadas pela episiotomia, as mulheres estão recorrendo à justiça alegando terem sido vítimas de violência física e psicológica, durante o trabalho de parto, e que o procedimento trouxe prejuízos emocionais e resultados bem negativos na vida social e sexual.

Vivemos num contexto sócio cultural, na qual o corpo da mulher não está apto para parir e que o bebê precisa de ajuda para nascer; que a vagina não abre, ou que se abrir sem corte vai rasgar tudo e ficar feia; que o marido não vai mais gostar porque a mulher ficou alargada; que a vagina tem dente e vai esmagar a cabeça do bebê se não passar por ali bem rapidinho. Mas isso tudo não passa de informação equivocada. Nosso corpo tem um design inteligente, a vagina, mucosa e períneo são macios e não precisam ser cortados, a cabeça do bebê é durinha e consegue ultrapassar e trabalhar todo o períneo para lacerar o mínimo possível, se lacerar. Optar por um parto normal, é também acreditar no corpo e nas evidencias científicas, mais do que acreditar no costume dos médicos em fazer episiotomia como verdade absoluta.

Acredito que não podemos ficar quietas e passivas diante da mutilação genital feminina que é uma forma terrível de violação à sexualidade e aos direitos humanos das mulheres. É preciso que Medicina Baseada em Evidencias seja conhecida pelas mulheres e praticada pela equipe de assistência ao parto, a fim de que se tenha humanização, dignidade e respeito para com o corpo da mulher.

Ilustração espisiotomia: Look Bebê

Assinatura_PriscillaTives

 

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