Falta de dilatação: mito ou verdade?

JulianaSilva_Dilatacao

Madrugada do dia 3 de Junho, uma quarta feira fria. Maria estava sozinha em casa quando começou a sentir as primeiras contrações. Ainda faltavam duas semanas para a data que o médico disse que sua primeira bebê chegaria, mas parece que a menininha resolvera adiantar. Conforme amanhecia, as dores a se intensificavam e então, Maria resolve pedir auxílio de sua comadre, também Maria, a fim de que esta a levasse ao hospital já que seu marido estava trabalhando e não havia mais ninguém próximo que a pudesse socorrer.

Chegaram ao hospital por volta das onze da manhã e depressa encaminharam Maria para uma sala de pré-parto junto com outras gestantes.

Durante o pré-natal, o médico que fizera o atendimento, mediu e pesou Maria e sua bebê consulta após consulta. Pediu dois ultrassons e seguiu a gestação aguardando a data prevista para o nascimento. Tudo corria bem.

Geraldo, o marido de Maria, comprou bons livros para que ela lesse durante a gestação e ela leu e releu diversas vezes toda a informação que tinha a seu alcance a respeito de partos normais. Nunca leu nada diferente para a chegada de sua bebê, a não ser recebe-la num lindo parto normal.

Pois bem, já no hospital e ainda sozinha, pois a sala de pré parto conjunta não permitia acompanhantes, as horas passavam, as dores pioravam e vez após vez entravam algum doutor para fazer o exame de toque com Maria deitada em seu leito. Maria já nem se lembra de quantos exames de toque foram feitos (e ela acredita que a equipe era predominantemente composta por “estudantes” ) quando de repente, ela começou a sentir vontade de fazer a tal força pra bebê nascer e… nada. E a orientação que recebia era de que fizesse bastante força cada vez que viesse a vontade. E entre uma contração e outra era feito o exame de toque, mas não tinha dilatação. Os médicos a orientavam a fazer mais e mais força, pois ela precisava dilatar tudo para bebê sair. Assim as horas se seguiram. Dez horas, onze horas, doze horas e Maria quase já não tinha mais força em meio às dores e puxos naquela sala de pré parto junto de outras tantas gestantes que ela nem lembra mais quantas eram. E, por fim, alguém aparece com a solução: “Olha, você já está aqui há doze horas e só dilatou quatro dedos até agora. Isso quer dizer que não vai mais dilatar e é melhor fazer cesárea”. Já sem forças, sozinha e sofrendo muito, Maria aceitou a melhor proposta de sua vida!!

E mais uma vez o mito da falta de dilatação venceu ! Mas será mito mesmo ou é verdade que as mulheres não dilatam? Nessa rápida história podemos observar alguns detalhes que atravancam a boa evolução do trabalho de parto. Vamos falar sobre a falta de dilatação de uma forma geral:

– Medo , tensão, estresse, insegurança… são grandes ladrões de dilatação, pois com esses sentimentos o corpo libera adrenalina que corta a ação da ocitocina que é um dos principais hormônios presentes na evolução do trabalho de parto. Então amiga, tente relaxar, esquecer-se de tudo e deixar seu corpo viver esse momento.

– Segurança e Privacidade são grandes aliados de uma boa evolução da dilatação. Sempre que possível, na hora da escolha do ambiente onde se deseja parir, tente pensar em locais mais preservados onde haja a possibilidade de estar somente quem você deseja!

– Quanto mais humanizada for a assistência ao parto e com menos intervenções como cortes e medicações desnecessárias, maiores as chances do seu corpo responder positivamente e, o mais importante, no tempo dele.

– Preservar o máximo possível suas energias durante a fase latente do trabalho de parto, pois perto do bebê nascer você precisará ter muita disposição. O cansaço extremo pode prejudicar muito a evolução da dilatação. Ingerir líquidos, se alimentar com coisas leves que agradem seu paladar e deem energia, repousar entre uma contração e outra, ficar em posições confortáveis… Todas essas medidas ajudam a diminuir seu cansaço e favorecem a dilatação.

– Não é possível prever quanto tempo você levará até a dilatação total do colo do útero já que cada organismo trabalha em uma velocidade, mas é possível dizer que algumas mulheres levem até dois ou três dias com contrações ritmadas sem iniciar a fase ativa e, quando você está na fase ativa e se você for primigesta, o esperado é que haja a dilatação em média, de um centímetro por cada hora e meia. Para mulheres que já tiveram um trabalho de parto, os demais costumam ser mais rápidos. E, se sua bolsa romper e você não tiver dilatação, uma boa indução de parto respeitando seu corpo e seus limites pode levar até quarenta e oito horas.

– Quando há algum entrave fisiológico, como por exemplo, o bebê estiver muito cansadinho, ou desproporção céfalo-pélvica (que é bem raro por sinal e só dá para saber na hora) entre outros pode ser que realmente não haja tempo ou possibilidade de esperar a total dilatação e o mais recomendado seja uma cesárea.

Opa ! Cesárea ? Só apareceu ao final do texto no meio de tantas ações que podem ser tomadas durante o trabalho de parto ? Sim ! É isso mesmo! A cesárea deveria ser SEMPRE a última alternativa. Aquela que socorre um motivo REAL.

Infelizmente hoje em dia nos hospitais contamos com poucos profissionais conhecedores e incentivadores de uso de técnicas de alívio de dor sem farmacologia, poucos profissionais realmente engajados com a assistência humanizada ao parto e o pior de todos, muitos profissionais com nenhuma disponibilidade para acompanhar uma gestante que fique dias em fase latente ou até mesmo 48 horas numa indução de trabalho de parto. E tempo é dinheiro, como já dizia o velho ditado.

A falta do conhecimento de alternativas, a falta de visão de que gestante não é um mero paciente, mas sim uma mulher SAUDÁVEL que precisa de respeito e atenção, a cultura que impõe o ritmo “fast food” em tudo faz com que uma história como a da Maria, que aparentemente tinha tudo para seguir um curso normal, acabe em cesárea.

Se informe, procure profissionais que buscam prestar assistência humanizada ao parto, prepare-se emocionalmente para quem sabe ficar horas ou dias vivendo os momentos que antecedem a chegada do seu amado bebê, confie em quem está ao seu lado e vai te acompanhar no parto, confie em Deus que conhece os desejos do seu coração e sabe o que é melhor para nós e siga em paz, pois de um jeito ou de outro, tudo vai dar certo !

E quanto à Maria, quando ela aceitou a proposta da cesárea logo parou de sofrer aquela cena de horror à qual foi submetida e, nos primeiros minutos daquela madrugada fria de quinta feira pegou sua bebê gordinha no colo que nasceu com 4,800kg e 52cm.

Ah, e apesar de roubadas, ficamos muito bem, obrigada ! Minha mãe e eu !

Assinatura_JulianaSilva

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