Posição para parir: existe apenas uma?

Priscilla_PartoVertical

Conhecer um pouquinho da história facilita a compreensão do que hoje acontece em vários aspectos da nossa vida. Um exemplo é a posição atualmente utilizada para o parto, a litotômica. Essa posição é aquela onde a mulher se deita de barriga para cima, coloca as pernas (às vezes amarradas) sobre as pederneiras para que o períneo e toda a mecânica do desprendimento do bebê sejam facilmente visualizados e controlados pelo obstetra que fica sentado ali, de frente.

Pois bem, desde os tempos mais remotos, de acordo com os achados históricos, as mulheres utilizavam-se das posições verticalizadas para parir. Do antigo Egito, tem-se cenas de Cleópatra parindo ajoelhada, estatuetas da Grécia antiga das mulheres parindo na posição de cócoras. Entre as tribos indígenas do México, Equador e Brasil, a posição de cócoras também era muito utilizada. Tribos da América do Norte, aparentemente, preferiam parir em pé. As mulheres de todas essas épocas eram guiadas pelos seus instintos para escolher a posição em que elas se sentissem melhor para controlar o processo do nascimento. Inclusive, Maria mãe de Jesus, segundo alguns pesquisadores, realizou seu parto ajoelhada, segundo o costume da época.

Esses povos antigos, já utilizavam da cadeira (e não cama) obstétrica para auxiliar no trabalho de parto, tais como os Egípcios, os hebreus, os romanos (inclusive Hipócrates recomendava o seu uso) e os gregos antigos, cujos médicos fizeram várias descrições para mostrar o valor e benefício desse instrumento.

Mas o tempo foi passando e o evento do nascimento começa a ser medicalizado, deixando de ser um evento feminino, as parteiras começam a ficar marginalizadas, e uma das consequências foi a “horizontalização” do parto, principalmente por influencia de um médico francês chamado François Mauriceau, lá no século XIV. Ele foi chamado para assistir o parto da rainha Louise De La Vallière, então sugeriu que a mesma se deitasse na cama para que o rei também pudesse assistir ao parto. De lá pra cá, os médicos acataram a ideia, uma vez que ficava mais fácil, do ponto de vista médico, pra fazer o parto. A ideia “pegou” e em 1920 o Dr De Lee postulou no primeiro Jornal Americano de Ginecologia e Obstetrícia que “os partos em primíparas deveriam ser realizados por especialista em obstetrícia sob o sono crepuscular da anestesia geral com auxílio de um fórcipe eletivo e episiotomia”.

Apesar desse costume estabelecido pelos médicos e que vigora até hoje, o parto verticalizado tem muitas vantagens em relação ao parto na posição litotômica, tais como:

  • Menor tempo de duração tanto da fase de dilatação quanto do período expulsivo;
  • Dores menos intensas;
  • Menor taxa de padrões não tranquilizadores dos batimentos cardíacos fetais, uma vez que a oxigenação do bebê não fica comprometida, pois não há compressão da veia cava;
  • Redução dos partos operatórios e de episiotomias;
  • Puxos mais eficientes, dando mais sensação de controle à mulher;
  • Participação ativa do companheiro ao prover sustentação para as posições que a mulher escolher.

Existem também desvantagens, tais como:

  • Dificuldade de monitorização dos batimentos cardíacos fetais, uma vez que a posição materna pode “atrapalhar” a localização do foco para ausculta
  • Dificuldade dos médicos em controlar o parto
  • Aumento discreto das lacerações de segundo grau, devido a velocidade de desprendimento do bebê, em função da ação da gravidade
  • Aumento do risco de sangramento, mas sem aumento da necessidade de transfusão de sangue.

O ideal para o trabalho de parto e parto é que a mulher tenha liberdade de movimentação, para que consiga realizar aquilo que seu corpo pede. É muito comum, a mulher movimentar-se instintivamente de maneira a ajudar o posicionamento do bebê. Durante o parto, geralmente ela adota posições que ampliam ainda mais o espaço da pelve por onde o bebê precisa descer. Tudo isso é fisiológico e natural.

O profissional precisa se adaptar a essa dinâmica toda e não o contrário, imobilizando a mulher, fazendo com que o parto se prolongue, fique mais doloroso e até sofrido, simplesmente para que o profissional tenha domínio sobre a natureza. A máxima da liberdade e autonomia da mulher consiste em quando ela mesma “pega” o bebê.

Além da posição litotômica tradicional, a puérpera tem várias outras opções, tais como:

  1. Cócoras: aumenta 28% a área do plano de saída da pelve.
  2. De quatro apoios: facilita o desprendimento dos ombros do bebê, previne lacerações
  3. Deitada do lado esquerdo: é uma posição confortável, mas não traz os benefícios da força gravitacional. É indicada em gestantes cardiopatas graves ou que tenham defeitos/traumas na articulação sacroilíaca.

O fato é que, não existe uma posição melhor do que a outra, joelhos, cócoras, deitada, de quatro, em pé… A melhor posição é aquela em que a mulher se sinta mais confiante, no controle da situação, para que possa usufruir dos benefícios fisiológicos, anatômicos e emocionais da movimentação durante o parto.

Assinatura_PriscillaTives

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