Seu obstetra é realmente humanizado?

PostMedicoHumanizado
Ao longo de muitos anos trabalhando com gestantes, aprendi que no mundo dos nascimentos é assim:

EXISTE O OBSTETRA CESARISTA 171

Aquele que engana deliberadamente as pacientes com indicações estapafúrdias de cesariana (do nível “cordão enrolado no pescoço” ou “cesárea prévia”). Esse profissional marca cesáreas eletivas 39 semanas ou menos porque “não quer correr riscos”. Possui “o dia de operar” (toda segunda feira, por exemplo, que é pro pai ter os 5 dias da licença paternidade emendando com o final de semana) e adoram frases de impacto com nuances de terror psicológico como: “o meu objetivo é te entregar um bebê saudável”. Ele diz que acompanha parto normal, mas diz pra grávida se preocupar apenas com o enxoval (que do parto ele cuida) todas as vezes que ela toca no assunto. E quando resolve falar do parto, gasta metade da consulta para convencer o casal de que o parto é um evento muito arriscado e o corpo humano gravídico é uma bomba prestes a explodir. Ele adora contar casos escabrosos de partos normais, mas omite sua estatística pessoal de intercorrências derivadas de uma cirurgia desnecessária de grande porte (e a quantidade de bebês internados na UTIn com desconforto respiratório pq nasceram antes de estarem preparados). As grávidas juram que ele acompanha parto normal, pois ouviram dizer que a vizinha da prima conseguiu (mas ela chegou com o bebê praticamente coroado no hospital). Ou então, sabem que com ele só rola cesárea, mas pensa que com ela (sua paciente desde a adolescência, imagina!) será diferente. Infelizmente, a indicação da desnecesárea provavelmente vai acontecer quando a paciente está com a gestação avançada demais para ter coragem de trocar de obstetra. Sua taxa de parto normal não passa de 10% (leia-se: alguns bebês trollaram esse médico e foram mais rápidos).

EXISTE O OBSTETRA ASSUMIDAMENTE CESARISTA

Aquele que fala na lata que não faz parto normal (seja por que não acredita, não gosta ou não ganha o suficiente pra isso pelo plano de saúde) e manda você procurar outro médico caso insista na idéia de “parir como índia”.

(Eu particularmente gosto desses. Não fazem você perder tempo. Acho que cada profissional deve atuar da forma como se sente confortável e da forma que sabe fazer melhor. Não sabe ou não gosta de fazer parto normal, não faça mesmo. Mas deixe isso claro).

EXISTE O OBSTETRA DESATUALIZADO

Aquele que se formou há 2 ou 3 décadas e até hoje não descobriu que o cordão umbilical não é assassino e que episiotomia não protege o períneo coisa nenhuma. Acha que a cesariana é a melhor opção para a maior parte das gestantes e que não existe a menor necessidade da mulher sentir dor nos dias de hoje. Ele acredita de verdade que está fazendo o melhor para a paciente (afinal, teria a mesma conduta com sua esposa ou com a própria filha). Infelizmente, por estarem no meio acadêmico, alguns acabam ensinando os alunos de medicina a atuarem da mesma forma, por isso vemos diversos médicos jovens nessa categoria também. O jurássico e defasado livro do Rezendão ainda é utilizado para embasar suas práticas, e a maioria deles nem sabe o que é a Biblioteca Cochrane. Sua taxa de parto normal deve estar em torno de 20 a 30%.

EXISTE O OBSTETRA BEM INTENCIONADO

Aquele que até sabe que o parto normal é melhor pra mulher e pro bebê, que até “faz” partos normais (não passa de 50% da sua estatística), mas que na prática deixa muito a desejar para mulheres e casais mais empoderados e exigentes. É aquele que fala: “SE estiver tudo bem podemos TENTAR um parto normal” (como se estar tudo bem fosse uma exceção, e não a regra – frase muito comum para os médicos das categorias anteriores também). Também chamados de “vaginalistas”, podem realmente priorizar o parto vaginal, mas na maioria das vezes vão recorrer à intervenções traumáticas e desnecessárias, como ocitocina de rotina (o famoso sorinho), manobra de kristeller, episiotomia, etc. Ah, o parto também precisa ser absolutamente redondinho: dilatação rápida, expulsivo rápido, a bolsa que nem pense em estourar antes do trabalho de parto começar, etc.

EXISTE O OBSTETRA “TIPO HUMANIZADO”

Aquele que você podia jurar que é humanizado e altamente radical porque topa alguns parto de cócoras, com doula, às vezes até mesmo na água, mas que ainda escorrega em muitos preceitos da humanização (sobretudo no que diz respeito ao protagonismo da mulher e à Medicina Baseada em Evidências). Por exemplo: não deixa passar de 41 semanas mesmo estando tudo bem nos exames e sendo esta a vontade da gestante, interna para induzir com poucas horas de bolsa rota, faz toques excessivos e desnecessários durante a gravidez e o trabalho de parto, manda a mulher prender a respiração e fazer força comprida (manobra de valsalva), pede uma série de ecografias desnecessárias no final da gestação, diz que a bacia da mulher pode não ser tão boa ou que o bebê está grande demais, e ainda adota algumas intervenções de rotina. Costuma ser contra parto domiciliar, parto pélvico e qualquer situação que fuja de seus rígidos protocolos pessoais, embora ofereça uma assistência muito superior à 90% dos seus colegas. Alguns também possuem receio de atender parto gemelar ou com mais de uma cesárea prévia.

*** Existem os médicos que estão trocando o chip e na transição entre a categoria anterior e a próxima ***

EXISTEM OS OBSTETRAS HUMANIZADOS PRA VALER

Aqueles que realmente acreditam e bancam o que estão fazendo e estão atualizadíssimos com as evidências científicas mais recentes. Permitem que as gestantes escolham qualquer posição que se sintam confortáveis para parir (nem que pra isso eles tenham que se sentar ou deitar no chão pra pegar o bebê, ou se molhem todos num parto na água) e respeitam o local de parto escolhido pela mulher que possui uma gestação de baixo risco (seja em casa, no hospital ou numa casa de parto). Aceitam o(s) acompanhante (s) da escolha da mulher e deixa a dieta totalmente livre durante todo o trabalho de parto. Em geral, esses raros e preciosos profissionais não aceitam fazer cesariana eletiva sem indicação (o que significa que suas taxas de parto normal estão por volta de 80 a 85%), peitando a resistência dos hospitais e o deboche dos colegas, pois seu compromisso é com a mulher, e não com o sistema. Eles informam o casal sobre todos os procedimentos realizados e estão dispostos a extrapolar alguns limites dentro do pressuposto de responsabilidade compartilhada e respeito às escolhas da gestante. Confiam e sabem que a natureza é sábia, que a mulher é poderosa e que o médico só deveria intervir quando necessário (sim, obviamente que às vezes é necessário). Ou seja, eles possuem a humildade de simplesmente não fazer nada a maior parte do tempo, além de aguardar pacientemente e monitorar com cuidado o bem estar materno e fetal. E quanto alguma intervenção ou uma cesariana for realmente necessária, também não hesitarão em fazer, da maneira mais suave e respeitosa possível.

Para esses, toda a minha admiração e gratidão!

Obs: contém ironia
Obs2: classificação apenas didática

Por Érica de Paula – Facebook

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