Cesárea: Juliana e Júlia

ju2A gestação da nossa princesa foi tranquila. Eu sempre  tive medo de não conseguir engravidar devido aos cistos nos ovários, mas ele não foram impedimentos. Sempre me cuidei, fiz atividade física(fiz musculação pesada até as 36 semanas de gestação), e os exames de sangue estavam excelentes, então após uns 8 meses de tentativas nosso bebê estava no forninho! Nunca fiz questão no que diz respeito à via de nascimento. Mas um dia na faculdade, meu primo Denis, e companheiro de laboratório me disse “ah pensa que importante e bonito deve ser um bebê chegar ao mundo na hora que ele decidir nascer” e aquilo me tocou, muito antes de eu pensar em me casar e engravidar. Comecei então a procurar informações sobre o parto normal. E o meu maior medo em parir seria da dor. Tinha medo da dor desconhecida, mas sempre pensei que, muitos dos nossos medos podem ser vencidos quando decidimos encará-los. Pensei que muitas das nossas antepassadas tiveram filhos em casa com parteira e não morreram de dor, e tinham vários bebês. Estudei na faculdade que o útero é um órgão sem fisiologia de corte (o que sugere que ele não foi feito para ser cortado, pobrezinho, não de praxe) e comecei olhar ao redor a natureza, quantas cachorras e gatas eu já vi parir em casa, no seu cantinho, nas suas caixinhas, isoladas do mundo e vivendo o seu momento, e tudo aquilo foi chamando a minha atenção, inicialmente de bióloga, apaixonada pela vida, e depois de futura mãe. Comecei a me informar enquanto tentava engravidar, descobri uma profissão chamada doula. Doula é a mulher que serve que dá suporte físico e emocional durante o parto. Achei uma profissão interessante, e, conversando com a Mari, ela me apresentou aos Grupos Gesta do Paraná pelo facebook, já que não morava mais no PR e descobri que na nossa cidade haviam doulas! Pensei então: que privilégio seria ter bebê com uma doula em Maringá!

Comecei então a conversar com a Renata, doula e psicóloga, que me indicou um profissional na cidade a favor do parto normal e começou a me mandar muitos textos e artigos científicos a fim de me informar cada vez mais e me tornar uma pessoa mais crítica sobre o assunto.

Morando a quase 1500 km de distância de Maringá, descobri a gravidez numa das viagens a minha cidade. Aproveitei e visitei o médico recomendado pela Renata. Gostei muito, uma pessoa humana, e muito atualizado cientificamente. Quando comecei questioná-lo ele me respondia baseado em fatos científicos e jamais me “rebaixou” por ele ser o médico e eu a paciente, sempre me tratou de igual para igual e gostei desse respeito. Com 36 semanas vim esperar a nossa hora. Participei de 2 ou 3 grupos de reunião do Maternati, com outras mães esperando pelo mesmo que eu, o direito de nascer com respeito. Ainda não havia conversado com meu médico sobre a doula, mas acreditava que não haveria problema algum dela me acompanhar. Meu marido viria com 38 semanas, eu vim ficar na casa de um casal de primos meus, e decidimos que minha mãe ficaria cuidando da minha casa enquanto eu estava aqui e também dos meus cachorros (que são meus filhos do coração) e não esteve por perto, mas esteve na memória o tempo todo. Quando meu marido chegou, com 38 semanas o médico pediu que as consultas fossem feitas a cada 3 dias, para maior segurança do bebê. Meu marido, que não era muito a favor das minhas “loucuras” como ele mesmo dizia, começou a ficar nervoso com o que viria, ele dizia: “imagine a bolsa estourar no meio da rua o que eu vou fazer?” Eu dava risada e pedia pra ele esperar tudo acontecer e depois nos preocuparíamos, pra não criar ansiedades nem expectativas, mas percebi que nele isso foi meio difícil, tanto que com 38+2 de gestação ele foi internado com crise de gastrite e ficou muito mal.

Minha história começa mesmo a partir daqui. Não que acima tenha sido inútil você ter lido, mas era preciso ler acima pra entender o desenrolar dessa história! Com 38+5 fomos fazer um cardiotoco, e tudo se encontrava dentro da normalidade. Meu médico então realizou aquele ultrassom do consultório, bem simples, e me disse que com 38 semanas Jú estava com mais de 4 kg. e que, seu perímetro cefálico era muito grande. Ele então me disse que teríamos provavelmente que pensar em uma data, visto que era muito grande as chances de haver desproporção céfalo-pélvica (que é quando a cabeça do bebê não consegue passar pelo osso da bacia da mãe.) Ele também fez amnioscopia nesse dia e um exame de toque que constatou não haver dilatação. Talvez me faltou informação nesse sentido, mas eu tinha curiosidade de saber como estava a minha gestação e permiti os exames, foi tudo indolor e muito rápido. Além do diagnóstico da desproporção ele me apavorou por não haver dilatação. Eu então brinquei e disse que eu tinha sido feita pra parir, ele me disse que as miscigenações de raças tinham estreitado as bacias da mães, que antigamente sim, as mulheres eram feitas pra parir, mas as misturas de africanas, caucasianas, indígenas… tudo isso contribuía pra que a desproporção fosse acontecer. Comecei a ficar em choque pelas asneiras, mas ignorei e perguntei pra ele então sobre a doula. Ele me disse que conhecia o trabalho da minha doula, mas que na hora do parto era muito melhor ter o pai do que a doula. E meu marido (que provavelmente não leu os textos e artigos que eu enviava pra ele), concordou com o médico. Assim que terminamos a consulta dei um beijo nele, um sorriso largo e um grande abraço(talvez eu já previa que seria o último) e desci os degraus do consultório chorando baixinho pra ninguém perceber, inundando por dentro, meu mundo começava a desabar. Como ele podia diagnosticar desproporção com 38 semanas? Como ele podia comparar o papel da doula com o do pai que são totalmente diferentes?  Chorei, chorei, me lembrei da minha mãe, minha torre forte, sozinha lá no outro estado, dos meus cachorros que eu já não via há tempos, da minha casa, da saudade. E dos meus primos me recebendo com tanto amor, de visita na casa deles,  como poderia superar isso? Eu vim pra esperar, não pra marcar.

Marcar eu marco a minha unha no salão, não a vinda da minha filha. Então meu marido me disse: “eu sei o quanto você queria isso, mas se não temos alternativa nós vamos pensar na melhor data”. Nesse momento mandei mensagem pra Renata, que confirmou tudo aquilo que eu já sabia…que eu estava sendo enganada. Então meu marido sugeriu marcar a cesárea da Jú para o dia 2 de maio, seriam 39 semanas e o aniversário do meu sogro. Eu pensei que se eu tivesse mesmo que decidir gostaria muito que as datas combinassem, mas eu não vim pra marcar nada. Meu sogro veio também esperar Jú nascer e estaria lá no dia 2. Ele não deu palpite não disse nada, na única vez que conversei com ele, ele disse que a natureza se encarregava das coisas, e eu estava decidida a não ceder. Chorei a noite toda sem saber o que fazer. Eu orava e clamava, suplicava a Deus uma direção, uma resposta. Isso começou a gerar certo atrito com o meu marido, ele não concordava comigo. Mas eu queria o melhor pra minha filha, eu sabia que esperar era o certo, só não sabia o que eu teria que fazer pra esperar. Então Deus começou a agir, porque como diz a minha mãe, “Deus faz, Deus mostra!” No dia 2, liguei pra Regina, enfermeira obstetra que conheci pelo Maternati, ela foi um anjo que Deus me concedeu naquele momento. Marcamos de nos ver no dia seguinte, fui sozinha, depois de chorar quase 1 hora no telefone com ela, enquanto ela atrasava o almoço da casa (pobre Regina, grande é o seu galardão!). Regina conversou comigo tudo o que eu já sabia, mas em termos científicos e técnicos. Me mostrou medidas anatômicas de cabeças, bacias e tudo mais, mostrou também a regularidade nos cardiotocos, com o que eu deveria me preocupar, me mostrou que eu já tinha contrações de Brackston-Hicks inclusive enquanto conversava com ela. Ela me deu um poder, que eu parei de chorar naquele momento e acho que só voltei a chorar quando Jú nasceu! No mesmo dia conversei com minha mãe a noite no Facebook, contei tudo pra ela e ela me disse: Ju, esse não é o único médico em Maringá! Então minha mãe me empoderou novamente, eu podia fugir sim, eu poderia ter um plano B, minha mãe não aceitava marcar a cesárea, ela achava que o bebê sabia a hora de nascer! E pra fechar o dia com chave de ouro abri o meu e-mail e tinha uma mensagem da secretaria do médico implorando pra eu ir fazer o cardítico. Como passei o dia fora com a Regina, não vi.

Ao abrir o Facebook, eu já havia relatado ao grupo de gestantes minha luta em fugir dia após dia da cesárea agendada, as meninas me recomendaram fugir do caridotoco, e havia uma mensagem especial nas minhas mensagens privadas: Maria, a paciente do mesmo médico que eu fui modificar uma consulta de rotina e a secretária disse que não poderia, visto que meu médico viajaria na outra semana. BINGO! TRUCO! Aí estava a chave! Meu médico ia viajar depois do dia 6 de maio, sendo minha DPP para dia 9, ele não estaria presente. E resolveu me enganar com aquele monte de baboseiras pra me operar antes de viajar. Eu estava pasma, não acreditava em tudo aquilo. Contei tudo pro meu marido, e depois para o mundo, mas ele ainda não sabia o que fazer nem eu. Uma opção era procurar outro médico, outra opção era esperar o trabalho de parto e ter bebê com um plantonista. Decidi então procurar o médico das minhas amigas do grupo que teriam partos domiciliares. O Dr. Edson Luciano Rudey. Dia 3 eu iria atrás dele, amanhã mesmo com certeza, conversaria com a secretária, e diria a necessidade que eu tinha de uma consulta. Não precisei.

Recebi uma ligação da Renata dizendo que havia conseguido um encaixe pra mim com a secretária dele. Eu disse então que ela podia me buscar qualquer dia, qualquer hora e em qualquer lugar. Depois das 39 semanas e da barriga que já não me deixava dormir a noite toda, e do pensamento que no outro dia ia falar com a secretária, receber essa notícia foi um bálsamo. Sei que a Renata também tinha seus interesses pessoais em conhecer o doutor e trabalhar com ele também, já que as pacientes da Renata eram muitas de partos domiciliares, e o Dr. Edson não estava presente! Fomos à consulta, Dr Edson incialmente parecia fechado, expliquei então pra ele que eu viajei 1500 km pra parir, mas que meu médico estava indo viajar naquele dia. Perguntei se ele me acompanhava nesse final de gestação, já que tudo estava bem e dentro da normalidade. Doutor olhou meus exames e me perguntou: você quer parto normal hospitalar ou domiciliar? Então eu choquei de novo! Gente que liberalidade(nem sei se posso dizer assim!). Ele estava me dando opções de escolhas, como pode? Ele  perguntou se eu ia parir em casa? Sim, em casa! Então me recompus internamente e disse: doutor eu quero um PN Hospitalar. Ele então fez um cardiotoco e um utrassom lá no consultório, que, por incrível que pareça, foi a primeira vez que via o rostinho da minha bebê, que sempre aparecia (ironicamente ou não) com as mãos escondendo o rosto. Quão grande foi minha alegria em ver seu rostinho! Doutor então fez uma foto pra eu guardar, eu brinquei com ele: “ela está olhando seu olhos verdes pra que os dela nasçam assim também”. Então ele me disse: “sua bebê está com mais de 3 kg. O que significa que está ganhando peso bem. Sua placenta também está praticamente em grau 4, o que indica que o desenvolvimento da gestação está ótimo. Logo teremos um bebê!” Então eu pude ver a diferença entre trabalhar com um profissional baseado em evidências e um profissional baseado em “vidências”, quanta mentira me foi dita, quanta asneira… eu queria naquela hora esfregar tudo isso na cara do meu EX GO. Senti-me aliviada, detalhe que nessa consulta não levei meu marido, pelo medo de causar mais uma decepção nos nervos a flor da pele que ele estava. Pensei em passar isso sozinha se caso houvesse uma decepção, mas não houve. Saí da consulta e precisei fazer uma coletiva com toda a família e contar tudo o que havia acontecido. Felizmente todos me entenderam, e se não entendessem, nessa altura do campeonato eu já não estava nem aí. Dia 8 fiz uma consulta com o Doutor, que de tão rápida não deu tempo do meu marido chegar. Ele me perguntou se eu permitia que ele fizesse um exame de toque, apenas porque não me acompanhou até ali, que isso não era rotina dele e que só faria se eu autorizasse. Achei justo e autorizei. Ele me disse q Ju estava encaixada, levemente pra esquerda e que por isso ele não poderia afirmar com certeza se ia nascer logo, e que não havia um dedo de dilatação. Então eu esporrei educadamente: “filha, porque você não nasce logo?” Ele então retrucou: “porque tudo tem o seu tempo”. Então me calei, esqueci o profissional maravilhoso no qual eu havia entregado meu parto! Disse pra ele que no outro dia faria uma ultra só pra saber mesmo como as coisas estavam a pedido dele. Não de tempo!

Do dia 8 pra dia 9 de madrugada fui ao banheiro de costume as 4 da manha. Fiz meu pipi sagrado e voltei pra cama. De repente senti um estouro de bexiga de festa perto do meu umbigo. Esperei pra ver se vazava, mas nada. Pensei que a Jú havia me chutado num lugar diferente. Resolvi voltar ao banheiro, e vi um fio de sangue. Voltei pra cama e pensei: a bolsa estourou, deve ter sido alta, porque não vaza. Vou me deitar dormir novamente e esperar contrações. Esperei 4 minutos, e veio uma dorzinha chata que pressionava minha bacia, exatamente como se 4 dedinhos encaixassem nos forames sacrais e fizessem força na mesma direção só que em sentido oposto. Pensei de novo, deve ser uma contração. Comecei então a contar quanto tempo elas demoravam pra vir, e pra minha surpresa, 4 minutos exatos de intervalo. Então olhei para o céu, da cama mesmo, e do mesmo jeito que agradeci a Deus levantando meu beta Hcg quantitativo, eu disse: obrigada Senhor, conseguimos esperar! Ela me deu seu sinal que está pronta!

Nesse momento mandei mensagem pra Renata, encontrei a Mari 6 da manha no face (aquela que me colocou no grupo Gesta e me ajudou até aqui). Contei tudo pra ela que me confirmou os “sintomas”, também avisei minha mãe por mensagem, mas o marido eu esperei acordar, e lá pelas 8 da manha contei pra ele. Ele se encantou coma sutileza, já que imaginou um escândalo! Então decidi ir ao consultório fazer um cardiotoco e conversar com o Dr. Cheguei lá e ele não estava de manhã. Ele me encaminhou pro hospital fazer o cardio por lá que logo iria estar lá. Fomos ao hospital e a plantonista me examinou. 2 dedos de dilatação e o cardiotoco normal. LA também normal. Ultrassom também normal. Tentei ligar pra Regina inúmeras vezes pra dizer que minha bebê não era cabeçuda, mas ela não atendeu. Renata me ligou e eu disse que qquando tivesse uma posição avisaria ela. O Dr. Edson chegou no meio do meu cardiotoco, e lá conheceu meu marido. No exame não era possível ver as contrações, mas os batimentos modificavam no momento em que elas aconteciam. E estavam lá, firme de 4 em 4 minutos me pressionando, cada vez mais fortinhas. Dr. Então sugeriu que eu internasse pela perda de liquido, mas mandou eu pra casa comer beber e me vestir e arrumar, que lá pelas 4 da tarde ele voltava. Eu fiz o que ele pediu, até cumprir a parte burocrática internamos quase 5. Renata chegou e me colocou na bola. Ah que delícia eram passar contrações na bola, muito mais suave e gentil. E elas permaneciam de 4 em 4 minutos, só que duravam em media 30 segundos. A noite foi chegando, o Doutor sempre vinha fazer os cardios e tudo parecia bem e normal. Era só esperar. Eu estava liberada  para comer e beber, mas minha vontade mesmo era só de agua muita agua. O incômodo era ir ao banheiro a cada gotinha! Mas comer eu não queria, não conseguia. A noite foi chegando, e o cansaço foi me batendo. Pela madrugada deitei na bola e consegui relaxar um pouco. Cochilei alguns minutos e a Renata disse: Ju, concentre-se agora no seu TP. Mentalize e tudo vai acontecer. Então naquele momento decidi focar mesmo e esquecer cansaço, sono, tudo.

Andávamos pelo corredor do hospital naquela madrugada fria, e enquanto a Renata parava na cozinha tomar goles de café, eu subia e descia o rol de escada por umas 4 a 5 vezes. E só parava pra esperar a contração ir embora! O Doutor estava firme lá no posto de enfermagem. No ultimo cardiotoco que fizemos as 3 da manha as contrações eram monstras, grandes montanhas no gráfico. Eu já estava ficando bêbada, fora de mim, tinha vontade de tirar a roupa, um calor me tomava pelo corpo, ouvi o doutor dizer pra gente ao sair do quarto “Agora vai!”. Não pensei 2 vezes, continuei subindo descendo, andando, agachando a cada contração. Fui ao chuveiro, deixei agua rolar nas minhas costas e que alívio me dava. Depois sai no frio de novo com a Renata, quantas voltas fizemos naquelas escadas e rampas do hospital. Lembro-me que, perto das 4 da manha(sim, já havia 24 horas de bolsa rota e contrações de 4 em 4 minutos) eu sentia tanto as contraçoes, que parecia que meus ossos estavam saindo do lugar, pensava que a Jú devia estar descendo cada vez mais. Agachava no corrimão e dizia: “vai embora logo contração monstra, que tem outra bem atrás de você chegando!” E assim fomos até umas 6 da manhã. Então o doutor voltou ao quarto, fez um cardiotoco novo e pediu por um exame de toque. Eu concordei novamente, e, pra minha surpresa, terrível surpresa, estava com 2,5 de dilatação. Havia passadas quase 30 horas de contrações de 4 em 4 minutos, cada vez mais doloridas, para que eu conseguisse meio centímetro. Aquilo doeu fundo, profundo na alma. O doutor continuou normal, não se abalou. Quando olhei a Renata e vi a expressão dela dizendo “o que?” eu me decepcionei. Ela viu toda nossa luta e esforço, a troco de meio centímetro. Doutor disse que o colo estava favorável, Jú estava bem, não havia porque se preocupar. Mas eu já havia chegado ao meu limite, dei tudo de mim, não havia mais forças.

Então sentamos e fomos decidir sobre o que fazer. Meu primeiro pedido foi analgesia e o doutor disse não de cara. Disse que não poderia me fazer analgesia com 2,5cm. Se eu tivesse pelo menos 5, 7 aí sim. Mas com 2,5 não. Então depois de muito conversar decidimos induzir com ocitocina sintética. Eu tinha medo de não aguentar, e foi exatamente o que aconteceu. O soro entrou na veia eu sentei na bola, e senti um mar de contrações. Elas não vinham mais de 4 em 4. Vinham umas seguidas das outras, e eu que já estava bêbada comecei a entrar em surto. Olhei a Renata quase dormindo no sofá do quarto, meu marido no banheiro e eu pulando na bola como se fosse atingir o teto do hospital e mentalizando “eu vou conseguir” “eu vou resistir essa dor” “eu vou conseguir”. Mas não dava mais. Passaram-se 20 e poucos minutos de soro. Cheguei ao meu limite, ao limiar da dor, do cansaço, do stress, de tudo aquilo que eu havia passado nesse ultimo mês. Acabou. Eu, que fiz leg press com 300 quilos nas pernas as 36 semanas de gestação não tinha mais forças pra aguentar aquele sorinho e aquelas dores que não foram efetivas. Minha Ju não estava em sofrimento fetal, mas a mãe estava. Aquelas dores deliciosas e das quais morro de saudades, transformaram-se num martírio.

ju1Então virei pro meu marido e disse: não aguento mais. Ele ficou aliviado, pois disse que havia passado mal a noite toda enquanto eu estava em contrações. O doutor voltou ao quarto e eu comuniquei a ele. Precisava parar, não dava mais. Então ele me disse: “você tem certeza? Este momento será eternizado na sua vida”. Ah como ele podia ser tão querido num momento desse. Foi então que abri o jogo com ele. Contei toda a historia do EX GO FOFO e disse pra ele que, ter chegado até ali com ele já me fazia forte, forte pra superar a dor que essa cesárea iria me causar. Ele então me disse: forte eu sei que você é, acompanhei seu esforço durante toda a noite. E assim fui com a Renata que já estava indo dormir(coitada) e meu marido pro centro cirúrgico. Ju nasceu desacordada, como diria meu marido, praticamente desmaiada. Não sei se pelo esforço do TP ou pela anestesia. Saíram com ela correndo e, foi necessário aspira-la. A pediatra plantonista humanizada que eu tive a sorte de conseguir, pediu desculpas ao meu marido pelo procedimento que realmente se fez necessário pois, pelo relato que me lembro,  Ju estava aspirando mecônio. Recebeu APGAR 5-10. Depois de uns minutos a recebi no meu rosto face a face, pude conhecer a guerreira que lutou fielmente comigo até ali. Então o marido foi lá fiscalizar os procedimentos que eu não queria que fossem feitos. E a Renata ficou comigo. Ju não recebeu colírio, leite artificial, chazinho, nada disso. Quando saí do centro cirúrgico eu e o marido dormimos, das 9 até o meio dia. Júlia só veio ao quarto lá pelas 3 da tarde, depois que eu tive um pouquinho de forças e comecei a brigar com as enfermeiras. Sinto de ela ter ficado exposta lá no berçário, mas eu não tinha nenhum condição de recebê-la comigo, de tanto cansaço. O que me confortou foi o marido dizer que ela dormia calminha no berçário, ela devia estar tão cansada quanto eu daquele TP. Ao chegar foi direto ao peito, linda, rosada, perfeita, de olhos preto jabuticaba como a mãe. Os olhos verdes que eu sonhei não vieram, mas Deus me deu de presente um mini clone! No dia da alta, o enfermeiro chefe plantonista de quando entrei no hospital estava lá. Veio ver a Ju e me disse: “parabéns, se todas as mulheres tivessem a sua força, o mundo estaria um pouco melhor”. Ali começou meu puerpério.

Chorei por diversos meses, chorei escondida, chorei amamentando, chorava copiosamente por não ter conseguido meu tão sonhado parto normal. Mas também aprendi. A cicatriz na barriga e no coração me transformou em alguém mais forte, alguém que passou por todas as instâncias pra respeitar o nascimento da filha. Alguém que foi vista por muitas pessoas como “frescurenta” e passou a ser respeitada depois de todo esse episódio. Não, eu não brincava de querer parto natural. Aquilo era sério, era meu ideal de vida e é, e sempre vai ser. Agradeço a cada anjo que Deus colocou no meu caminho pra me ajudar, desde o grupo de mães, o doutor Edson, que me assumiu com 39 semanas, a Renata, esses não desistiram de mim. Parei de indagar minha filha porque não conseguimos, parei de me cobrar, questiono sim, mas sempre no sentido de entender o “pra que”, e não o “porque” dessa cesárea. Lembro-me de tudo como se fosse hoje, e eu sei, que as minhas forças humanas chegaram ao fim naquele momento, mas aquele momento ficou lá. Ju é um bebê perfeito, não teve cólica nem alergias, intolerâncias, mama bem, dorme bem, não chora, não reclama, só me traz alegria, e sinto nela uma cumplicidade, uma amizade forte, como se me agradecesse por esperar naquele momento a hora dela nascer! Hoje eu oro a Deus e peço a Ele cada dia mais informação e menos julgamento, e acredito sim, que não passarei por esta vida sem parir. Eu sou mamífera, eu sei parir, se as mamíferas conseguem eu também vou conseguir. YES,WE CAN! (…aguardem meu VBAC!)

Por Juliana Franzoni Schneider

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