“Pari normal” – O relato de uma mãe que teve um parto normal

img_06051Um relato sobre a vontade e a exigência de pedir para ter um parto normal. 

A primeira coisa que disse para o médico do convênio que me atendeu para o pré-natal foi que queria ter um parto normal. E foi a última coisa também.

Já na trigésima nona semana, ele vaticinou: “a bebê vai entrar em sofrimento fetal. Eu te opero na terça”. Tivesse eu aceitado, a bebê perderia 3 dias de barriga e um parto perfeitamente normal, sob os olhares de uma mamãe suada e lacrimosa e um papai de mão firme, que cortou o cordão umbilical. Teríamos perdido uma à outra, digo. Aquele momento lindo em que estávamos sujas e éramos, pela primeira vez na vida, duas pessoas distintas.

Eu chorei. Ela não. Espertinha, veio pro peito.

O médico do convênio nunca mais teve notícias de nós duas. Não voltei nem pra agradecer pelos meses de consultas meio afobadas e atrasadas.

Ingrata.

Nem voltei pra dizer pra ele que, naquele dia, entrei no consultório rindo da piada ótima que fizemos enquanto descíamos a rua. E saí do consultório chorando, com medo de que minha bebê estivesse sofrendo na barriga.

Nem voltei pra dizer pra ele que, depois da última conversa, falei com mais 4 médicos e nenhum deles me disse que a diminuição do líquido amniótico era crítica. Pelo contrário: era o esperado, já que eu estava na última semana de gestação.

Também nem voltei pra dizer que a minha bebê nasceu saudável e que não me anestesiaram pra parir. Foi na raça, caras. E eu não morri. E ainda vou dizer uma coisa aqui pra vocês: sou totalmente a favor do parto normal e fiquei muito feliz de saber que o governo adotará medidas para coibir a cesariana entre pacientes de convênios médicos. Demorou, mas antes tarde do que nunca.

Pra você, que é gestante e não quer sofrer para dar à luz, vou dizer outra coisa: o aprendizado de lidar com a dor, por essa motivação, é muito importante.

Aceitar, parar de brigar, lidar com a natureza dos fatos. Existe uma criança que cresceu no seu ventre e precisa sair de alguma maneira. No meu caso, que bom que não houve corte, que ninguém colocou uma pinça de ferro na minha barriga e puxou minha criança pelo crânio. Que bom que a minha filha estava envolvida no parto dela, que o coração dela acelerou e deu tempo de ela perceber o que estava acontecendo. Que bom que ela veio pra mim imediatamente e mamou. Que bom que ela mama até hoje, com mais de um ano de idade.

Nós, seres humanos de uma maneira geral, nos afastamos muito da natureza. Em algum momento da civilização adotamos uma postura de desdém, como se a natureza fosse a Amazônia ou o deserto ou o animal selvagem. Como se o leite brotasse na prateleira do mercado e o frango fosse uma criatura asséptica e pálida, concebida à vácuo e sem o pecado original.

O parto é a reconciliação: nós também somos natureza. Parir é uma experiência radical de retorno à natureza. Um parto não é plástico, não é asséptico. Tem sangue, urina, fezes, líquidos, placenta, criança, cheiro de corpo, suor, pêlos. É isso. Passamos a vida disfarçando a natureza do que somos com desodorantes, depilações, roupas que nos cubram o que nos desfavorece, maneiras de minimizar as nossas imperfeições.

É muito libertador poder se aceitar naturalmente em algum momento. Então que seja nesse. Não importa como você escolhe se apresentar no dia a dia, se você gosta muito de acessórios, se sabe usar a moda a seu favor e harmonizar a fragrância com a ocasião. É importante que você saiba quem você é, do que se trata ser um ser humano.

Já que estamos parindo e vamos lidar com melecas diversas nos próximos anos de vida da criança (xixi, cocô, vômito, catarro, ranho, cera, comida pisada, lixo virado, geleca cósmica de brinquedo), é bom começar pelo começo: aceitando, assumindo a responsabilidade, fincando os pés na terra, na dor, na superação, no exercício do abandono do controle, na exposição, no amor.

Ouso sugerir, inclusive, que os maiores dilemas humanos ocorrem por um problema de responsabilidade. Não nos responsabilizamos por nada do que fazemos diariamente. O maior exemplo disso está na alimentação. Comemos a carne de animais que não vimos morrer. Por isso, perdemos o contato moral com o animal, a participação na sua vida e o contato estético com a sua morte. Se você tivesse que matar o animal para comer, comeria? E, se sim, comeria na mesma frequência e quantidade?

Provavelmente o contato, a noção de responsabilidade, afetaria o hábito. Transformamos tudo em pele sem sangue. A plasticidade do alimento, do lixo, do sexo, da imagem, do afeto, da morte e do nascimento.

Daí entramos em parafuso e não sabemos porquê.

Que estranho, né?

Por Camila CaringePapo de Homem

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