Parto domiciliar: Bruna e Valentina

12400965_761336987299220_2330773839582608916_nPeço desculpas se esqueci algum detalhe. Não lembro de muita coisa, sabem como é né ‘’estava embriagada de ocitocina’’.

Nunca antes havia pensado profundamente em vias de nascimento. Era parto normal, mas se não ”desse”, cesárea. Mas era algo fora de questão, algo que demoraria pra chegar minha vez. Não foi bem assim…
Logo que descobri a gravidez, veio o interesse por saber mais sobre parto normal, fui lendo, me informando, olhando vídeos, pesquisando artigos médicos, e dentre muitos destes, conheci o Parto Natural Humanizado, e também soube da existência de um grupo, que abortava questões sobre o mesmo, onde fui participando das rodas de conversa durante toda gestação.
Bruna1Conheci uma mulher, que foi o meu ‘’abre-alas’’ para este mundo, Pri. Veio em minha casa, conversou comigo, me mostrou inúmeras informações importantíssimas, e também comentamos sobre Parto Domiciliar. Eu estava super contente, animada, e louca pra ter meu PD, mas logo, tive que desistir desse sonho, pois algumas intercorrências aconteceram no caminho, e ficou decidido que eu tentaria um Parto Humanizado Hospitalar (!!!), e junto comigo estaria presente minha doula Hanna (Ô mulher que eu amo.)
Bruna3Com 36 semanas, uma amiga que é doula, me mandou mensagem e me questionou como estavam os preparativos para o meu parto, falei que havia desistido, e ela me falou para conversar com a Equipe, e dar um jeito nisso, que eu não deveria, nem poderia desistir do meu sonho. (Obrigada Ju, por sempre estar sempre quando precisei, por todos os conselhos, dicas, e a força que sempre me transmitiu, gratidão pela sua amizade). Então, seguindo o conselho dela, fui atrás, e tudo se ajeitou para prosseguir com o plano inicial do Parto Domiciliar Humanizado. Que felicidade, eu estava no meu caminho, me sentindo poderosa, e sabia que Deus iria abençoar minha escolha, e o que me restava era arrumar os preparativos e esperar a hora da minha princesa.
Bruna4Que ansiedade, os dias passavam rápido demais, e nada da Valentina vir ao mundo, somente medo, incertezas, insegurança tomavam conta de mim. Não sabia o que estava acontecendo, logo eu que sempre fui centrada no meu objetivo, estava me desviando? E após inúmeras conversas com amigas super importantes pra mim, eu consegui me desligar, e deixar as coisas fluírem, meu corpo trabalhar. Afinal, como ouvi diversas vezes: ‘’Parto é entrega!’’.
Eu estava muito tranquila, os dias iam e vinham, e eu ali, só aguardando minha hora. Dia 01 de Janeiro, dormi até tarde, levantei, tomei café e meu marido me convidou pra irmos a casa de alguns parentes dele em Três Coroas, então fomos lá almoçar, e a tarde fomos a um Camping. Retornamos a Gramado, e a noite fomos para o Centro, jantamos, e caminhamos pelo Centro, curtindo a linda noite, estava seguindo minha vida, como se não estivesse grávida, totalmente desligada… Retornamos pra casa por volta da 00:30. Quando estava desligando a luz pra deitar na cama, senti algo diferente, senti algo na calcinha, fui ao banheiro, e então saiu ‘’aquela gosminha’’, abri um sorriso e pensei ‘’Será mesmo que é o tampão?’’, decidi acreditar que sim. Na mesma noite avisei a Rachel, que havia pedido para que qualquer sinal a contatasse. Na manhã seguinte levantei cedo, fui ao banheiro e novamente o tampão estava ali… Mas não me exaltei muito, pois sabia que o parto poderia demorar a acontecer.
Bruna7Estava conversando com minha mãe, e senti algo como uma leve cólica, como estava atenta pois o tampão havia saído, olhei no relógio (não custava nada ‘’cronometrar’’ né), eram 10:28, não avisei ninguém. 20 minutos depois, mais uma dorzinha, e assim foi a sequência, avisei a Hanna, que pediu para que eu cuidasse os intervalos, e se fossem regulares, avisasse a Rachel para vir. Após 9 contrações de 4 em 4 minutos, fui para o banho, se fossem Braxton, iriam passar, porém, não passaram, e então avisei minha mãe e liguei para Rachel, que estava atendendo outro parto, mas em seguida viria para minha casa, e Hanna já estava a caminho.
Hanna chegou em minha casa por volta de 12:30, fomos conversando, sentei na bola, e fui me exercitando, e a cada contração que vinha, ela me amparava… Almoçamos e fomos para a casa do meu Nonno, pois devido ao espaço maior, lá seria melhor para o parto. Ficamos Hanna, minha mãe e eu. Certo momento, ficamos sozinhas Hanna e eu, e ela me disse ‘’acredito que tu realmente esteja em trabalho de parto’’, indescritível o que senti nesse momento, pois até então nada parecia real…
Bruna8Pri chegou alguns minutos depois, e sua companhia era ótima, me fazia massagem, me dava palavras de carinho e conforto, colocando musiquinhas, e fazendo chazinho pro pós-parto (essencial! kkk). Avisei a Ana que era a fotógrafa, e ela logo viria. Então lembrei ‘’aé, tenho que avisar meu marido, rsrsrs’’. Liguei para o Tael, e disse para continuar trabalhando, e não se apressar para vir, porque demoraria um pouco (mal sabia eu que realmente demoraria)
Bruna9As 16:00 Rachel e Paula, chegaram, e junto chegou minha irmã. Então nessa hora, as contrações espaçaram, e diminuíram a intensidade. Entrei em desespero. Não sabia o que fazer, desacreditei, não confiei. Estava caindo por dentro, aquele sentimento de impotência. Pedi para conversar em particular com a Hanna, e compartilhei meu medo, chorei, chorei muito, e Hanna me dando forças, me fazendo criar coragem, e percebi então que só eu poderia mudar essa cena. Levantei da cama, e fui ao encontro do meu ‘’ser’’. As contrações engrenaram mais uma vez, e ali fui, levando, tomando chá, dançando, rebolando, me alimentando, tirando fotos no quintal de casa, e curtindo cada dorzinha, sendo cuidada por mulheres que até pouco eu não conhecia, mas que minh’alma sim, as conhecia.
Eram cerca de 22:00 e as contrações haviam espaçado novamente, e de novo, eu meio que desacreditei, pedi para fazer um exame de toque, para ver a quantas andava, e então veio a surpresa, 6cm . Uhuuuuu! Era verdade, eu realmente ia parir, meu corpo sabia o que estava fazendo. Parece que nesta hora tomei uma injeção de ânimo, e as contrações retornaram, mais doloridas, e mais fortes! Que delícia… Que delícia…
Jantei, e as contrações ali, sempre presentes, fortes, intensas, maravilhosas… Fui para o chuveiro, e Hanna foi comigo, e enquanto fiquei lá, ela também ficou, se molhou, mas esteve comigo, me dando todo apoio que eu precisava, lá as contrações dispararam, era uma dor difícil de descrever. Sempre me perguntavam que nota eu daria pra dor, e eu respondia que não sabia, pois não tinha noção de como seria depois… O sinal de sangue começou a vir enquanto eu estava no chuveiro, e as dores cada vez mais fortes, nessa hora pensei em desistir, então Hanna me disse que eu devia estar na transição. Eu pensei comigo ‘’Estou perto, cada vez mais perto, só mais um pouco e vou conhecer minha filha.’’ Fui em frente. Decidi entrar na piscina. E as contrações? NADA! Simplesmente desapareceram dentro da piscina, e eu ficava cada vez mais desesperada, sem saber o que fazer, pensando que eu era o problema. Eram 2 da manhã, e eu novamente pedi exame de toque, e para o meu espanto, não tinha completado nem 7cm. Confesso, que nessa hora, morri por dentro. 4 horas e nem 1cm a mais… Que sensação horrível.
Todos se retiraram da sala, e foram descansar, havia gente dormindo por toda casa, e comigo, só permaneceu Tael, que já havia chego a algumas horas, mas tinha ficado na minha casa até então. Deitamos na cama, e ali ficamos, conversamos um pouco, e ele me deu forças. As contrações voltaram, a cada uma que vinha, eu apertava sua mão, e ele me amparava… Tentei descansar, e dormir um pouco, até cochilei entre as contrações, mas estava difícil, pois estavam muito próximas (Tael dormiu, apodreceu, nem me via gritando, e detalhe que estava deitado do meu lado, hahaha)
Certa hora levantei, estava cansada, e sozinha, entrei na piscina. Pararam-se as dores. E fiquei refletindo… Ou eu ficava ali, e deixava tudo assim, ou saia e me mantinha ativa, para sentir as contrações e minha filha nascer. Minha mãe entrou no quarto, e eu pedi para chamar a Hanna, que deixou a decisão nas minhas mãos, tomei forças não sei de onde, e levantei, sai da piscina e tomei coragem, havia chego a hora de cumprir meu papel. Após 1 hora de contrações ritmadas e fortes, fui para o chuveiro novamente, fiquei um tempo lá, cantando junto com a Hanna, me embalando, quando saí, sentei no vaso, e pedi para Hanna apagar a luz, e ali fiquei, viajando nas contrações, junto estava Paula, que também me dava muito apoio. Fizemos rebozo, e as dores aumentando, e aumentando…
Num colchão que havia sido posto na sala de jantar, colocaram uma pilha de travesseiros, me escorei nela, e fiquei de quatro apoios… Estava quase cochilando, ouvindo ao fundo uma música baixinha da Isadora Canto, quando comecei a sentir a vinda de uma nova contração, fui levantar minha cabeça, e ouvi um barulho, como o encaixar de uma cabecinha (rsrs), e minha bolsa rompeu.

AS CERCA DE 2 HORAS E E 46 MINUTOS QUE SE PASSARAM DESDE ENTÃO, EU RECORDO COMO 15 MINUTOS. PERDÃO PELO POBRE RELATO A SEGUIR.

Lembro-me de inclinar rapidamente as costas e dizer ‘’minha bolsa estourou’’, Hanna levantou o cobertor e confirmou o fato, e ouvi alguém dizer ‘’agora vai ir rápido’’ (Há-há, Pegadinha da Valentina).
Sentei na banqueta de parto, e Hanna estava sentada atrás de mim, as contrações estavam muito doloridas, e eu gritava a cada uma, soltava toda minha força, e via de canto, minha mãe as lágrimas… Que sensação estranha…
De repente senti vontade fazer força, e avisei, mas estava com medo de não ter a dilatação completa, então Rachel realizou um breve exame, e disse que já estava nos 10cm. Ô sensação boa!!! A cada força que eu fazia, realizava em mim mesma um exame de toque, para sentir onde estava Valentina, sentia a cabecinha dela, cada vez mais próxima… De repente, senti o famoso ‘círculo de fogo’. Sensação inexplicável. Valentina estava ali, estava nascendo, eu mal podia acreditar. Eu gritava, urrava, e a cada puxo minha bebê estava mais perto. Nesta hora estavam presentes, Rachel, Paula, Hanna, Pri, Ana, Tael, minha mãe e minha irmã (que foi chamada assim que perceberam que o nascimento estava próximo).
Tael estava sentado do meu lado, com a mão esquerda eu segurava a sua, e com a direita segurava a da Hanna. ‘’Meu Deus, que dor!!! ‘’ eu pensava, e ao mesmo tempo lembrava que minha bebê estava nascendo. Cada força que fazia, sentia ela descendo cada vez mais. Foi quando após uma força gigantesca que fiz (não sei de onde sai tanta força), lembro de olhar pra minha barriga, e ver Valentina se mexer por completo dentro dela, e se empurrar… ela nunca havia se mexido daquela maneira, e então a cabecinha dela saiu, e como diz o Tael ‘’se a Rachel piscasse, não dava tempo de pegar a nenê’’. Ela saiu como uma flechinha, rápido e certeira no meu coração, amparada por Rachel, e veio num piscar de olhos para o meu colo.
Bruna5Não há como descrever a sensação de pegar ela pela primeira vez no colo. Lembro de seu corpinho quente, e escorregadio, e aquele cheirinho de vérnix, aquele cheirinho de ‘’minha cria’’. Nesse momento meu coração se encheu, se preencheu, se inundou, e transbordou de amor. Ver aqueles olhinhos abertos, olhando nos meus, aquele chorinho que parece que dizia ‘’mamãe, estou aqui, acalma teu coração’’. Ahhh, não existem palavras que descrevam esse momento. Hanna havia cedido lugar para o Tael sentar atrás de mim, e ali ficamos, aninhando nossa filha, olhando a perfeição divina que Deus nos mandou.
Bruna6Levantei com ela no colo, e deitei no colchão, ali de imediato ela fez a pega correta, e já saiu mamando (logo após nascer, como num reflexo, ela procurou o peito, quando ainda estávamos sentadas). Papai cortou seu cordão, após parar de pulsar. E ficou conversando com Valentina. Era a hora dos selfies com a mamãe e a mais nova menina da casa. Após algum tempo Luana vestiu Valentina, que permaneceu sem banho até o anoitecer.
A placenta dequitou cerca de 1 hora pós-parto, e as dores então cessaram por completo. Rachel e Paula me cuidaram até o momento que se fez necessário, e após isso, Valentina e eu fomos para o quarto, e ficamos lá, somente eu e ela, nos conhecendo, e iniciando nosso vida como mãe-filha.
Não existe como agradecer todas as pessoas que se fizeram presentes nesse dia comigo. Todas tiveram seu papel essencial nessa jornada que trilhamos. Um agradecimento especial a Hanna, pois sem ela, eu não teria conseguido. Amo você!!! Foram pouco mais de 20 horas, mas passaram como se fossem apenas alguns minutos, mas são e sempre serão os minutos mais importantes e inesquecíveis de minha vida. O MEU MUITO OBRIGADA A TODOS.

Valentina Rissi dos Santos, nasceu dia 03 de Janeiro, ás 6h46min, as 39 semanas e 5 dias de gestação, chegando junto com os primeiros raios de sol, para iluminar a minha vida!

Eu fiz o melhor pela minha filha e por mim. Eu realizei o que meu corpo foi projetado pra fazer. E agradeço ao meu Deus, que sempre ouviu as minhas preces, e as atendeu!

Nós provamos pra esse sistema de cesáreas desnecessárias que eu podia sim parir. Que jovenzinha, com 17 anos meu corpo sabe o que fazer, e que bebês sabem nascer. Que dilatação pode até demorar, mas ela acontece, e que meu corpo teve passagem sim, pra uma bebê de 3.470kg, 49cm e detalhe: períneo íntegro.

Fazer o que né, nasci assim…

A Diferentona da família
Índia Parideira
Ocitocinada
Terror dos ginecos fofinhos
Rainha das contrações
Empoderada desbravadora
Quebradora de paradigmas
Sambista na cara da sociedade

Agradeço imensamente a Ana Pacheco pelos lindos registros.

Palavra de 2016: GRATIDÃO!!!

Por Bruna Rissi

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