Parto Domiciliar: Juliana e Ana Clara

DSC_0779Eram 3 horas da manhã de sexta-feira (23/08). Acordei com um gato de rua miando no meu quintal. Já estava chegando a 41 semanas de gestação e a ansiedade era grande. Lembro que rolei na cama pensando mil coisas, até que senti a primeira onda chegando. Como a do mar, ela veio e se foi. Alguns minutos depois outra onda. Fiquei mais alerta, seria o trabalho de parto começando? Tentei dormir novamente, mas outra onda começou. Percebi que as ondas eram ritmadas e que não estavam distantes uma da outra. Resolvi acordar meu esposo e juntos fomos contando os intervalos, estavam vindo de 8 em 8 minutos.

Um misto de sentimentos inundou meu corpo e meus pensamentos. Estaria perto? Veria minha filha ainda naquele dia? Será que conseguiria ter meu tão sonhado parto domiciliar? O que a família pensaria de tudo isso, afinal eu não havia contado pra ninguém, apenas para alguns amigos mais próximos.

Lembrei então de todos os encontros de gestantes que participei, e da Renata (minha doula), dizendo que era preciso dormir e estar bem descansada para o trabalho de parto ativo. Resolvi seguir esse conselho e dei umas cochiladas até o dia amanhecer.

Acordei diferente, queria viver cada minuto daquele dia de forma intensa, como eu tinha sonhado e planejado. Tomei um café da manhã cheio de frutas e cereais integrais. Sentei ao lado do meu lindo esposo, ele pegou o violão e cantamos nossa música, aquela que havia marcado nossas vidas exatamente quando nossa filha foi concebida, na Venezuela, como missionários em terra estrangeira.

“Dame tu voz, dame tu aliento
Toma mi tiempo es para ti
Dame el camino que debo seguir
Dame tus sueños, tus anhelos
Tus pensamientos, tu sentir
Dame tu vida para vivir…”

https://www.youtube.com/watch?v=T5gGDtW9l2Y

Eu me sentia muito disposta, apesar das contrações de 6 em 6 minutos, decidi caminhar no parque, exatamente como fizemos durante os 9 meses da minha gestação. Andamos 3,4 km naquela manhã, e a cada contração eu parava e encostava meu corpo no corpo dele. Ele se concentrava comigo, estávamos em perfeita sintonia.

Como era sexta-feira, dia de faxina, a casa estava suja e desarrumada. Era preciso fazer comida e lavar roupa e lá fomos nós, como um time, força tarefa, realizar todos os deveres domésticos. Queríamos deixar tudo pronto para o grande momento.

DSC08936Comuniquei as meninas, Juliana e Regina (minhas enfermeiras obstetras), sobre as contrações e nos falamos durante todo o dia. À tarde a Jú veio até em casa e começou a monitorar as contrações, que  estavam vindo de 5 em 5 minutos. Usei e abusei da bola de pilates, fiz muitos agachamentos, queria me concentrar 100% no meu parto e no meu bebê.

Lembro que li muitos e muitos relatos de parto onde as gestantes se arrependiam de não ter descansado ou se alimentado direito durante o trabalho de parto latente (1º fase). Então resolvi seguir novamente os conselhos e tirei uma soneca a tarde e me alimentei muito bem durante todo o dia.

DSC_0034A noite chegou e as dores começaram a ficar mais fortes. Eu já sentia as ondas irradiando para as costas. Pedi para o meu amor fazer uma massagem, e ele gentilmente colocou uma música suave, e suas mãos deslizando no meu corpo me trouxeram um grande alívio, além de muita paz e confiança.

Logo a Jú e a Regina chegaram. Trouxeram todos os seus aparatos para o parto. Ali eu entendi que elas ficariam comigo, até minha linda princesa chegar. Recebi muitas massagens maravilhosas, conversamos bastante, rimos (ainda conseguia rir nessa fase), e então eu entrei no meu mundo e dali pra frente pouco me lembro dos fatos de forma cronológica. Não era mais possível distinguir as conversas. Eu ouvia as pessoas falando, mas não as entendia, apenas sentia se eram vozes tensas ou suaves, se estavam preocupadas ou se estava tudo bem.

DSC_0020Muitas horas se passaram, mas eu não tinha mais noção do tempo. Lembro-me de ter ficado ajoelhada com a cabeça encostada na cama, em pé e debruçada na bola de pilates, que estava em cima da cama. Andei pela casa, me encostei nas paredes, fui algumas vezes tomar uma ducha no chuveiro e então entrei na banheira inflável. Foi pensando nessa banheira que o sonho do parto domiciliar começou.

Meses atrás, eu e meu esposo pesquisávamos sobre parto, e através de uma amiga conheci a Renata, comecei a frequentar um grupo de gestantes e voltei da primeira reunião falando sobre o parto domiciliar. Lembro que meu esposo ouviu com atenção e falou: – Já estou visualizando uma banheira aqui nessa sala e nosso bebê nascendo aqui em casa! Era o incentivo que eu precisava, o apoio mais maravilhoso que eu estava buscando. Naquele momento decidimos que iríamos lutar pelo parto do nosso sonho.

DSC_0013O Roger entrou na banheira comigo, foi um momento muito importante como casal, eu sonhei com essa cena. Vi tantos vídeos de partos, tantas banheiras, tantos casais maravilhosos tendo momentos de cumplicidade ali, que me senti no meu  vídeo, no meu momento. As dores vinham fortes, mas a água, o amor e a proximidade de conhecer minha linda princesa, amenizavam qualquer incômodo. Uma música linda e suave soava, uma luz baixa deixava o ambiente perfeito. Eu queria viver intensamente cada segundo como se fosse o último, único e maravilhoso.

DSC_0027Apesar da dor eu me sentia calma, totalmente conectada e entregue aquele momento. Eu lembrava constantemente de todos os materiais que li, todos os vídeos que assisti e todas as reuniões que frequentei. Tudo isso foi essencial no momento do trabalho de parto. Como uma esfomeada eu busquei informação durante vários meses e agora me sentia totalmente saciada, confortada, tranquila e segura. Sabia que estava no local certo, com as pessoas certas e que meu corpo estava trabalhando para a chegada da minha princesa.

No meio da madrugada comecei a me sentir cansada e com sono, debruçada na cama e com meu esposo ao meu lado, cochilei várias vezes entre as contrações. Como meu corpo relaxou, as contrações começaram a se espaçar. Lembro que as meninas recomendaram que eu andasse ao redor da casa. E lá fui eu, junto com meu esposo, dar voltas e mais voltas buscando novamente as contrações. Quando elas viam eram fortes e eu comecei a vocalizar. Estava tímida no começo, mas a Renata me lembrou que seria bom eu colocar a dor para fora através da vocalização. Os sons amenizavam minha dor e me conectavam com aquelas sensações.

Quando eu voltei para dentro da casa, me apoie no Roger e chorei. Estava com medo. A Renata me perguntou quais eram meus medos. E eu respondi que era o medo de não conseguir. Meu maior medo desde o começo era esse: não conseguir parir minha filha em casa e ter que ser transferida para o hospital. Eu não me imaginava num ambiente hostil e frio como aquele e principalmente pensar na possibilidade de ficar longe do meu esposo na sala de pré-parto ou mesmo no momento do nascimento da minha filha.

Ela me recomendou ir para o chuveiro, lavar o corpo inteiro, conversar com minha filha, pedir pra ela vir. Falar alto, vocalizar, deixar transbordar todos esses fantasmas que estavam dentro de mim. O chuveiro para mim foi uma benção. Ali eu lavei minha alma, orei, chorei, gemi de dor, vocalizei, e principalmente falei pra minha filha que ela já era um milagre desde a concepção. Juntas íamos enfrentar essa luta.

Voltei renovada, com forças para a última etapa. O dia já estava quase amanhecendo. A Regina sugeriu fazer um exame de toque para saber como estava a evolução do trabalho de parto. Foi o primeiro e último que fiz em toda a gestação. Já estava com 8 para 9 cm de dilatação e isso me deixou muito animada.

DSC_0043Sentei na banquetinha de parto que estava no meu quarto. Me apoiei na Jú em cada contração. Ela me sustentou por bastante tempo até minha bolsa romper. Lembro que a partir desse momento as contrações ficaram tão fortes que eu tinha a nítida sensação que ia morrer. O Roger ficou em pé na minha frente e eu várias vezes passei meus braços por entre o seu pescoço e literalmente me pendurei nele. Larguei meu corpo durante as contrações. Vocalizava, orava, clamava a Deus pra que tudo aquilo acabasse logo. Era a pior fase, a fase da transição para o expulsivo.

Fui novamente para a banquetinha. O Roger sentou numa cadeira atrás de mim, eu segurei forte nas mãos dele e então os puxos começaram a vir. Uma força involuntária chegava juntamente com as contrações e eu comecei a fazer força junto com ela. Na verdade tive que aprender a fazer força. No começo eu gritava, parava na metade, respirava, não estava me concentrando. No decorrer do processo fui aprendendo a me unir a dor e a trabalhar juntamente com meu corpo.

DSC_0052Tenho inveja daquelas mulheres que fazem três forças e o bebê nasce. Eu tive que fazer força por uma eternidade. Pingava suor do meu rosto e nas horas das contrações eu praticamente esmagava os dedos do meu querido esposo. Comecei a ficar preocupada porque meu bebê não vinha e eu estava extremamente exausta. Deus realmente me mandou forças da onde não tinha pra esse momento.

Finalmente as meninas começaram a ver o cabelinho do bebê, mas eu ainda não sentia ela descendo pelo meu corpo. Mais algumas forças e senti o famoso “círculo de fogo” e ela coroou. Lembro que a Jú me perguntou se eu queria colocar a mão na cabeça do bebê, mas eu não quis, estava muito concentrada nas forças e só queria que tudo acabasse logo. Depois disso foi tudo muito rápido, logo saiu a cabeça, o corpinho e pronto, meu bebê estava nos meus braços. Que emoção foi aquele momento, ouvir aquele chorinho, sentir aquele corpinho. Eu só conseguia falar: – Minha bebê, minha bebê!

DSC_0064Toda a equipe estava emocionada, meu esposo chorava bastante. Tínhamos recebido do Pai o maior presente de todos, a nossa Ana Clara.

Depois disso minhas forças se foram, deitei um pouco, a placenta não estava saindo. Sugeriram que eu fosse até o banheiro e finalmente lá, depois de mais uma contração, eu pari a placenta. Que sufoco! Passar pelo parto em casa e ter que ir pro hospital pra retirar a placenta não seria nada legal.

Tive uma pequena laceração e levei alguns pontos, mas nada se compara a alegria e a grande emoção de ter tido meu bebê da forma como sonhei e me preparei. Me senti a mulher mais feliz e realizada do mundo e pude finalmente dizer pra mim e para o mundo que é possível sonhar, ir atrás e acreditar no próprio corpo.

Pra mim o maior segredo está em acreditar no parto. Ter a certeza que você não vai “tentar”, você vai conseguir. A cesárea nunca foi uma opção pra mim, muito menos ir pro hospital. Eu trabalhei minha mente, corpo e espírito por meses. Conversei muito com Deus embaixo do chuveiro, chorei, tive crises e medos. Mas ao mesmo tempo eu tinha muita fé no parto que eu escolhi simplesmente porque vi a mão de Deus guiando cada passo e sabia que Ele NUNCA faz milagres pela metade. Deus é perfeito, completo, e Ele completou em mim tudo o que faltava.

Comecei essa jornada sem plano de saúde, sem emprego, sem local pra morar, sem móveis, sem nenhuma peça de roupa ou móveis para o meu bebê. Me senti confusa, insegura, sem perspectivas. Tive uma gestação maravilhosa e difícil. Mas Deus me deu muito mais do que eu sonhei, me cobriu de mimos, de presentes, de amigos, de todos os mínimos detalhes para a chegada da Ana Clara. Por isso eu digo hoje, vale a pena ter fé e confiar. Você verá muitos milagres acontecerem, basta descansar nos braços do Pai.

Agradecimentos:

– À Deus primeiramente. Sem Ele nada disso seria possível ou imaginável. Ele me deu de presente meu bebê e a certeza de que faria o impossível ser realidade na minha vida. Numa das meditações matinais, Ele me deu esse verso: Acaso faço chegar a hora do parto e não faço nascer? “, diz o Senhor. “Acaso fecho o ventre, sendo que eu faço dar à luz? “, pergunta o seu Deus. Isaías 66:9

– Ao meu querido e amado esposo que desde o começo da gravidez não mediu esforços pra aliviar minha carga, me tratando com muito amor e carinho. Obrigada por me ouvir, por suportar ao meu lado momentos tão difíceis de incertezas e dúvidas. Por suas orações, seu carinho, suas massagens, sua companhia constante. Pelas caminhadas de mão dada no parque e por estar 100% ao meu lado na escolha do parto. Por se informar junto comigo e assistir vários vídeos. Sentir o seu imenso amor e cuidado durante todo o trabalho de parto me fez sentir a mulher mais abençoada do mundo. Eu te amo cada dia mais!

– À Vanessa Rosa, que desde que soube que eu estava grávida me falou sobre parto humanizado, orou e torceu por mim. Foi ela que me apresentou a Renata que mais tarde seria minha doula.

– À Renata, por me ouvir desde o começo, pelos livros emprestados, pelas valiosas aulas no curso de gestante, por não se conformar em me deixar parir pelo SUS. Pelo coração enorme, por me proporcionar o momento mais maravilhoso da minha vida. Por acreditar em mim, por repetir isso durante todo o trabalho de parto. Por me tranquilizar dizendo que estava tudo bem e que tudo ia dar certo. Sem suas palavras, sua calma e doçura, suas massagens e seu toque, com certeza tudo seria muito mais difícil.

– À Juliana Afonso. Foi um milagre conhecer essa menina justamente na igreja que escolhi para frequentar com meu esposo. Pela amizade, pelo tempo dedicado à mim, por me proporcionar o momento mais importante da minha vida. Sua dedicação a essa linda profissão me inspira. Você esteve do meu lado, suportou meu corpo nas horas das contrações e foi a primeira a pegar meu bebê e trazer até meus braços. Nenhuma palavra ou ação será capaz de expressar toda a gratidão e carinho que tenho por você.

– À Regina, mulher forte, guerreira, alegre e apaixonada. Nunca vou esquecer o dia que te encontrei pela primeira vez no portão aqui de casa. Nos emocionamos juntas ao nos conhecermos pessoalmente. Nossas vidas já tinham se cruzado pela internet e mal sabíamos o que Deus estava reservando para nós. Você lutou a minha luta, sonhou o meu sonho, e tenho certeza que fez o possível e o impossível pra ver a Ana Clara nascer com respeito e muito amor. Obrigada pelas palavras, pelas massagens e pelo carinho tão grande que recebi de você e toda a equipe. Vocês são maravilhosas.

– À Eliana, que mesmo grávida, veio acompanhar meu parto e realizar todos os primeiros cuidados com meu bebê. Muito obrigada pelo carinho com que nos acolheu.

Obrigada à você, que orou, torceu e me apoiou em todo esse processo. Agradeço também aqueles que tentaram me desanimar, contaram histórias horríveis pra me deixar com medo, subestimaram meu corpo e minha capacidade de parir. Sem você com certeza eu não teria me fortalecido, buscado cada vez mais informação e não teria alcançado essa vitória.

5 Comentários

  1. Ana Paula disse:

    Olá!!
    Meu esposo e eu decidimos não ter filhos por infinitos motivos… Li a história do seu parto e achei muuuiiito linda… Confesso que chorei… O tempo todo tenho uma interrogação muito particular… por isso gostaria de lhe fazer a pergunta apenas de forma particular.
    Deus continue abençoando vocês muito, muito e muito mesmo.

  2. Bárbara Vicente disse:

    ual! li, me emocionei, me imaginei na cena, quanto sentimento!
    sou tec. enfermagem e apaixonada pela obstetrícia,ual, lindo é o que eu tenho a dizer, ainda n sou mãe, mas se Deus nos guiar para esse caminho, eu quero um parto domiciliar, tenho uma amiga enf obstetra aki, esposa de Teologando, ou seja ano que vem formatura e não sabemos o caminho que Deus nos levará, mas já a deixei de sobreaviso, MEU PARTO È COM VC!!! rsrsrsr maravilha ideia do site, vou acompanhar com a certeza da ajuda, assim como foi o Tudo para vegetarianos, como aprendi, recém casada, vegetarianos, e eu n cozinhava nem arroz quanto mais assumir uma casa!!! rsrsrsr, oraremos por vocês!!! Que Deus os abençoe!!

  3. Ester disse:

    Linda história!!

  4. Giselle Paixão disse:

    Nossa muito lindo teu relato S2 Me emocionei, me imaginei nesse momento que tanto sonho… Estou com 24 semanas, e quero muito ter a experiencia do PN… Infelizmente, não tenho muito apoio para isso, mas o meu desejo me faz seguir em frente e não desistir. Terei que ir ao hospital, espero que seja um momento único de muito amor… Levarei esse versículo comigo, porque tenho certeza que Deus é quem está no comando e controle de todas as coisas.
    Que Jesus continue abençoando tua família, e que te inspire para ajudar outras mulheres.
    Emoção é o que descreve o que sentir com tuas palavras, o trabalhar de Deus é muito lindo.
    Parabéns :*

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