Parto domiciliar: Liciane e Joaquim

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Em abril de 2012, descobrimos nossa primeira gestação, quanta alegria, família toda em festa e uma certeza, a de que queríamos um parto normal (digo no plural, pois meu esposo esteve sempre ao meu lado, respeitando e apoiando minhas escolhas).

Inocentes demais… achávamos que era só querer… A GO sempre dizendo: “É cedo para falarmos nisso”, “Se estiver tudo bem com vocês…” Enfim, com exames de toque mensais, logo que entramos no 7o mês ela disse que havia 1 cm de dilatação e que eu deveria diminuir o ritmo, pois o Miguel poderia vir muito antes do esperado… Começou nossa ansiedade… Malas prontas com uns 40 dias antes da DPP… E, a cada consulta, uma previsão da data que ele iria chegar!!! Para piorar as coisas, descobrimos a tão abominável circular de cordão, sem informação e confiando na médica saímos do consultório com a seguinte informação: “Tudo bem esperar até as 40 semanas, mas se ele não vier até lá vamos ter que fazer cesárea!”

Acreditando que era o melhor a fazer por ele, por pura desinformação, marcamos a cesárea, com 39 semanas e 6 dias… Chorei muito, não era como eu tinha sonhado, nem como havíamos planejado… Ele nasceu numa sexta-feira, 14/12/12 às 20:31.

Receber um filho é uma coisa mágica e foi maravilhoso ver o nosso Miguel ali, no braço do papai… Desamarraram meu braço direito e eu fiz um breve carinho, dei um beijo naquela bochecha gostosa e ele foi para os procedimentos padrões do hospital… Tive fortes reações da anestesia e então fiquei 3 horas em observação, fui para o quarto e reencontrei o meu filho perto da meia noite, graças a Deus, ele nasceu muito saudável e conseguimos estabelecer uma amamentação tranquila!

Quando me vi grávida novamente, em 31 de março de 2014, a alegria foi imensa, muita emoção, família em festa novamente, mas antes de contar para os amigos eu corri para internet e digitei no Google: parto normal após cesárea, li em algum site, que não me recordo qual, que o Ministério da Saúde recomendava parto normal após 24 meses da cesárea, no mínimo. Chorei, não queria ter outra cirurgia (descobri depois, que a Organização Mundial da Saúde recomenda 18 meses)… Meu esposo vendo a minha tristeza, me acalmou e sugeriu que procurássemos mais informações, médicos que apoiassem o parto normal, etc… Nas minhas buscas encontrei o Gesta Maringá, e fui no encontro do mês de abril, sai de lá com a certeza de que o parto era possível para mim e que eu veria aquelas mulheres muitas outras vezes neste ano…

Passei por três médicos até encontrar um que aceitasse o fato de que eu queria um parto normal após uma cesárea, nossa primeira consulta foi em junho e eu estava muito feliz, pois sabia que dessa vez tudo daria certo!

Durante a gestação do Joaquim, gestamos também o conhecimento acerca do sistema obstétrico brasileiro, da capacidade da mulher em parir, das vias de parto, assistimos o filme O Renascimento do Parto, enfim, estudamos e estudamos muito… Entendemos que não tínhamos feito o melhor pelo Miguel, porque fomos enganados! E decidimos, dessa vez não, ninguém roubaria nosso parto novamente!!!

Praticamente decorei o artigo da Melania Amorim e da Ana Cristina Duarte sobre as indicações reais e fictícias de cesárea e voltava a ele a cada dúvida que surgia. Não fui a uma consulta sem ter pesquisado a resposta que seria a esperada de um médico humanizado… E, assim, descobri que o meu médico apoiava o parto normal, mas não era humanizado… Comecei a temer que ele não respeitasse o tempo do Joaquim e o tempo do meu corpo para parir… Entrei em pânico!

Num encontro no mês de setembro, chorei muito quando expus esse meu medo, então um casal (de anjos, só pode, pois nunca mais os vi nas reuniões) perguntou com a maior naturalidade: “e por que vocês não tem um Parto Domiciliar?” Eu respondi: “porque o médico disse que é perigoso, mesmo sendo raro, de eu ter uma ruptura uterina”… Nessa hora a Regina (Enfermeira Obstétrica da equipe Semilla, que assistiu o nosso parto depois) me abraçou e acho que eu chorei mais ainda. No meio das lágrimas, as palavras ditas anteriormente, ficaram martelando em minha mente: “o médico disse… o médico disse… o médico disse…”

Alguns dias depois a Milena (Coordenadora do Gesta Maringá e nossa Doula querida) foi me visitar e “doular” a minha alma, pela primeira vez, e com aquela paz que ela transmite nas palavras me encorajou a buscar mais informações e me empoderar para sonhar mais alto… Fomos nós (eu e meu esposo) conhecer mais a fundo as maravilhas de um Parto Domiciliar.

Passamos um mês estudando, pesquisando e interrogando tudo e todos sobre o assunto… Tivemos uma visita da equipe para nos apresentar a assistência oferecida por elas… E, no dia 29/10, meu aniversário, fizemos uma janta em casa e “fechamos” o Parto Domiciliar, eu não poderia imaginar o tamanho do presente que estava ganhando!!!

Optamos por não contar a ninguém, a família e os amigos não estudaram conosco, então não saberiam o quanto seria seguro e saudável para o Joaquim e para mim.

Fomos preparando a casa, nós mesmos, sem pressa, não quis deixar tudo pronto para que a ansiedade não atrapalhasse… Assim, passou novembro inteiro… No dia 30/11, domingo, no encontro de fim de ano do Gesta, conversei com minhas colegas “barrigudas”, com as mamães do grupo e ganhei, da minha Doula, uma pintura de barriga, para me despedir dela… Apesar de estar entrando na 39a semana naquele dia, eu não sentia nada, nem percebia ao certo as contrações de treinamento, sempre confundia com os movimentos do Joa, achava que ele ainda ia demorar a chegar…

Na terça-feira å tarde recebi as EOs Regina e Priscila para nossa consulta semanal. Naquele dia fiz uma baita faxina na casa, arrastei mobília, lavei a área, etc. Quando elas chegaram me disseram que meu rosto estava diferente e perguntaram se eu estava sentindo alguma coisa, eu disse que devia ser por que estava cansada devido à faxina; conversamos bastante, eu afirmando que ainda não sentia nada, Joaquim ótimo, enfim, no final da consulta na hora de nos despedirmos a Priscila me disse: Lici você está tendo uma contração, eu fiquei surpresa, e contei que tinha muito “aquilo” mas não sabia que era contração… Elas saíram e eu marquei unhas e depilação para sexta-feira, pois queria estar bonita pra chegada do nosso segundo príncipe.

Naquela noite fui å novena de Natal, Joaquim se mexendo como nunca, conheci uma antiga parteira, senhora de uns 80 anos, que na despedida nos abençoou profetizando: “Você não vem no próximo encontro (dia seguinte), esse menino nasce logo”. Não quis dizer que não, pois não tinha nenhum sinal, pensei que seria antipático de minha parte…

Cheguei em casa, brinquei com o Miguel que logo foi dormir, meu esposo subiu e eu fiquei na sala pensando muito nas meninas do grupo, senti muita vontade de falar com elas, pois imaginava que o meu parto ainda ia demorar, mas o delas poderia começar a qualquer momento… Escrevi uma mensagem a elas no face, quase uma oração:

          “…Desejo de coração que consigamos parir!!!

           Que tenhamos um parto com tudo o que ele tem para nos oferecer.

           Para mexer com nossas histórias e nos fazer crescer…

           Se for demorar muitos dias ainda, que tenhamos paciência e confiança   em Deus e em nós mesmas…

           Se doer muito, que sejamos ainda mais fortes…

           Se for muito longo, que tenhamos calma e tranquilidade em esperar…

           Se for muito rápido, que consigamos vivê-lo intensamente…

           Enfim, que estejamos verdadeiramente preparadas para vivê-lo e para dar o melhor de nós para nossos filhos!!!”

Enviei às 00:29 do dia 03/12, quarta-feira, uma delas estava online e ficamos conversando por um tempo. Perto da uma hora, nos despedimos, e eu fui pra fora de casa, olhar a chuva, chovia forte, e meu corpo pedia pra eu me jogar naquela agua, meu esposo me achou maluca e não permitiu, eu entendi afinal o Miguel acordaria perto das 7 horas como sempre e eu não podia ir dormir muito tarde… Essa amiga me escreveria naquela tarde a seguinte mensagem: “Hoje o dia foi de muita chuva… Chuva que ninguém esperava e que lavou a sua alma, lavou a sua dor do parto roubado, e choveu bênçãos na sua vida!”… Com certeza Deus me lavou a dor, a alma, os medos e as inseguranças…

Tomei um banho e me deitei, fiz minhas orações, vi as horas pela ultima vez 01:47… Acordei ås 03:00 com uma dor forte na barriga, fui ao banheiro, fiz cocô e pensei: contração devido å dor de barriga, voltei e dormi. Ås 3:45, mesma coisa. Às 4:15 de novo, mas aí já estava achando estranho, ao invés de voltar pra cama fui ao chuveiro, não sei o tempo que fiquei lá, mas tive duas contrações… O sorriso me tomou a face e uma alegria imensa enchia o meu ser, era o meu tão esperado Trabalho de Parto!!!

Não queria acordar meu esposo pois acreditava que quando o dia clareasse tudo iria parar, tinha certeza que meu parto seria longo… Mas, perto das 06:00, acordei ele de tanto que andava no quarto, ele me perguntou: “É hoje? Devo ligar pra Milena?”. Não deixei, expliquei que as contrações estavam curtas (mas eu não havia cronometrado nenhuma) e que provavelmente iam passar… Ele se levantou, me abraçou e foi tomar banho, tive muitas contrações neste período, mas não conseguia acreditar que estava acontecendo, tamanha era minha felicidade…

Às 06:45 o Miguel acordou, desci com ele no colo, coloquei no sofá e fui fazer sua vitamina, meu esposo desceu e perguntou o que deveria fazer, eu pedi que fosse trabalhar, por que aquilo ainda iria demorar muito… Mandei mensagem para a equipe Semilla e para Doula dizendo que o Joaquim estava chegando, elas perguntaram como estavam as contrações e eu disse que era de meia em meia hora e que duravam uns 20 segundos. Era a sensação que eu tinha, elas pediram que eu cronometrasse, cronometrei por 30 minutos, contrações regulares de 3 em 3 minutos, com 40 segundos de duração. Ao encarar aquilo me caiu a ficha: Trabalho de Parto Ativo, sozinha com o Miguel… Enviei a tabela a elas e ao meu esposo pedindo que ele voltasse logo para casa, ele chegou as 8h e eu subi pro chuveiro, porque as dores estavam muito fortes…

A Thaís, nossa outra Doula, chegou logo em seguida, me tranquilizou e cronometrou as contrações, 2 em 2 minutos, fui ao banheiro e vi o meu tampão, com sangue, bom sinal, estou dilatando, pensei. A minha noção de tempo havia sumido, deste momento até o nascimento senti uns 30/40 minutos, depois fui saber dos horários certos… Às 8h20 a Regina chegou, acompanhou a frequência e duração das contrações e, às 9h20, por estar sozinha, decidimos fazer um exame de toque para avaliar “em que pé estava”, ela não me disse nada, fiquei triste, pois pensei que toda aquela dor não estava me rendendo dilatação, … Senti vontade de fazer cocô e elas me ajudaram a ir ao banheiro, quando fui me sentar veio aquela vontade de fazer força, gritei por ela e disse: “Re, estou com vontade de empurrar o Joaquim, quanto está minha dilatação?”. Ela respondeu: “Total.”.

Daí para frente, me concentrei em minha respiração e senti que Deus estava me presenteando com um parto que eu pudesse “aguentar”, pedi que a Thaís fosse “doular” nosso Miguelzinho para que meu esposo pudesse ficar comigo… Ele subiu, ligou para fotógrafa e ficou comigo, me amparou, me acariciou, me deixou segura, me deu forças, foi um companheiro perfeito, viveu comigo aquelas dores, sentiu comigo aquele prazer inexplicável. O Miguel veio “olhar” a mamãe um pouquinho, tenho a imagem daquele olhar de amor, inocente e curioso, gravado em minha memória.

Fiquei no chuveiro até a bolsa romper, tinha mecônio: verde e em placas, muitas placas, grandes e espessas… Me assustei, mas voltei pro meu mundo, a famosa Partolândia, logo em seguida… Por estar difícil de acompanhar os BCFs no chuveiro, a Regina pediu que eu fosse pro quarto. A Milena já havia chegado, mas não me lembro o momento, só lembro dela ali, na porta do box, me auxiliando a sair de lá, eu não queria ir pro quarto, não queria me deitar na cama, a imagem de estar deitada na cama me remetia ao hospital e eu tinha medo, medo da cesárea…

A Lia chegou com parte do material necessário e elas ouviram que os BCFs estavam tranquilizadores, se afastou a ideia de transferência pro hospital, me acalmei e voltei a me agachar a cada contração… Me lembro da Priscila chegando e eu pedindo desesperadamente a banqueta de parto…

Não me recordo claramente, mas depois disso eu sentei, levantei, cantei e dancei com meu esposo: “Tu vens, tu vens, que eu já escuto os teus sinais” e “Hoje eu só quero que o dia termine bem”.

Olhei a imagem da Nossa Senhora do Bom Parto e rezei, rezei a plenos pulmões, três vezes a Ave Maria… A Milena se aproximou de mim e disse: “Lici, você precisa internalizar a sua oração e respirar, o Joaquim precisa da sua respiração…”. Obedeci, naquele momento inspirei o ar mais puro que meus pulmões já receberam, senti uma paz absoluta e na contração seguinte fiz a força necessária para que meu filho nascesse… Ele nasceu naquela contração, com as mãos do meu esposo na minha barriga, sentindo ele descer e o olhar amável de Nossa Senhora… A Regina o amparou e o entregou em meus braços, eu abracei, beijei, chorei, choramos todos, de alegria, de emoção, eu sentia as lágrimas de amor do meu esposo no meu ombro, que sensação maravilhosa, inimaginável!

A Thaís trouxe o Miguel para conhecer o irmão e ficamos ali, nós quatro, em alguns minutos que me parecem infinitos, nos olhando e nos beijando, alegres, satisfeitos e completos!

Em apenas 9 minutos a placenta dequitou, só senti ela deslizando, sem dor, sem contração, sem nada, éramos só prazer e realização! Depois meu esposo teve o prazer de cortar o cordão, um gesto lindo, a real passagem do Joaquim do meu ventre, para nossos braços.

Só tenho a agradecer à Deus, por ensinar-nos a ser pacientes e guiar-nos nesta caminhada linda, na construção da história da nossa família! Å equipe que nos assistiu e às nossas Doulas por tornarem esse sonho possível e por respeitarem a mim e ao Joaquim, por nos olharem com os olhos de amor e por nos tratarem com tanto carinho.

Mulheres: nascer não é doença, é natural, é saudável, é lindo… São raros os casos em que há necessidade de hospital, medicamentos e intervenções… Acreditem sempre no seu poder de parir e na capacidade, dada por Deus ao seu filho, de nascer! Estudem… Se empoderem… Se entreguem ,de corpo e alma, para o mais belo dos dons da mulher: o de dar à luz, o de fazer nascer!!!

Fonte: Café Mãe

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