Parto Normal Hospitalar – Raquel e Isabela

10003390_10152371123446447_3628725072660789268_n Esse não é o relato de um parto humanizado, cheio de harmonia e respeito (infelizmente). Esse é o relato da luta por um parto normal (de verdade), sem intervenções e com respeito à fisiologia do meu corpo. Esse é o relato de um parto intenso, forte, violento e violentado, e é sem duvida um dos relatos da nossa vitória sobre esse sistema ridículo que trata a mulher como um ser doente, cujo corpo deficiente é incapaz de parir. Eu venci, sei que muitas outras já venceram, e acredito que tantas outras ainda irão vencer. E espero do fundo da minha alma que nossa história possa contribuir ao menos um pouco para isso.

Eu já nasci sabendo de duas coisas, 1º que seria mãe, e 2º que meus filhos nasceriam de parto.

O que eu não sabia era que o parto normal nesse país era tão difícil de acontecer, alias por aqui ele dificilmente acontece, tem que ser conquistado, em uma luta contra protocolos absurdos e desnecessários de hospitais, condutas abusivas e inadequada de médicos e enfermeiros, o sistema ridiculamente arcaico do próprio ministério de saúde, e como se já não bastasse tudo isso, ainda temos que lidar com a desaprovação das pessoas a nossa volta, família e amigos nos tratam como se estivéssemos loucas, tentam nos desestimular e nos desacreditar, tentam nos convencer de que não somos capazes, cada vez mais ouvimos frases como, você não sabe do que ta falando (e você sabe né? quantos você pariu mesmo?), na hora que vier a dor você vai pedir pelo amor de Deus pra te operarem (e você tem tanta certeza disso por que viu na sua bola de cristal?), você ta louca, deixa de ser teimosa,(quem vai parir sou eu ou você?), a criança não vai passar você é muito estreitinha, (e quando foi que você mediu pra saber se meu bebe passa ou não??) BANDO DE LESADOS.

Agora que eu já desabafei vou contar como foi à luta pelo meu parto NORMAL, que não é esse parto normal que eles vendem nos hospitais por ai, e sim normal de verdade, como a natureza deve ser, sem intervenções, sem atrapalho(s), simples, natural, genuinamente NORMAL.

Vamos do começo, eu e meu marido estávamos juntos a 5 anos, noivos a 1 ano a meio,e decidimos pegar o dinheiro que estávamos guardando para nossa casa, e investir em nosso negocio, fizemos isso em janeiro de 2013, em julho eu me descubro grávida, não estávamos nem perto das condições financeiras que considerávamos boa para ter filhos, o retorno de nosso investimento não seria tão rápido, e nós teríamos que trabalhar mais do que nunca para fazer nosso projeto dar certo, mesmo com essa situação fiquei instantaneamente feliz, meu noivo precisou de um pouco mais de tempo pra poder curtir esse momento como se deve, ele estava muito preocupado com o que nós não tínhamos, já eu sabia que o mais importante, o que é realmente necessário nós tínhamos em abundancia, não faltaria a nosso bebe carinho, amor, dedicação, e respeito, e quanto as demais coisas, nós sabíamos exatamente o que fazer para conseguir, então pra que se preocupar não é mesmo?? Decidi me preocupar com o que realmente importava naquele momento, e comecei a pesquisar sobre gravidez e parto, foi ai que tive uma das maiores frustrações, o que pra mim era um fato incontestável natural e simples (o parto normal) não era para o resto do mundo (por resto do mundo leia-se Brasil), isso me deixou muito decepcionada, frustrada, irritada, a acima de tudo abismada, afinal qual é o problema das pessoas, elas são todas cegas e burras??? Não enxergam o obvio??

Percebi que ia ter de lutar e muito para conseguir o meu parto, do meu jeito. Bem já que eu ia entrar em uma guerra, precisava me preparar, comecei então a buscar informações, entrei em grupos no facebook que apoiam o parto natural, em um desses grupos vi o pessoal falando sobre doulas, que elas davam apoio e suporte durante o trabalho de parto e o parto, fui logo perguntar como conseguia uma, assim conheci a Katya. Encontramos-nos, ela me explicou qual era o papel da doula, me falou do curso de preparação para o parto de algumas das vantagens do parto natural, me deu também uma lista com alguns médicos humanizados aqui em Curitiba, (até esse momento ainda pensávamos em pagar o parto particular). Sai de la determinada, eu ia ter um parto natural, era isso que eu queria e era exatamente isso que eu ia ter.

Comprei o livro Parto com amor, que contem diversos relatos de partos, humanizados em hospitais, casas de parto, e domiciliares, e alguns de partos hospitalares sem qualquer respeito à mulher, ao bebe, e muito menos a família, esses me chocaram muito, e me fizeram ter cada vez mais certeza de que tinha feito a escolha certa. Passei a procurar cada vez mais artigos, pesquisas, relatos, tudo que eu encontrava compartilhava com meu noivo, que não dava la muita importância, pra ele era tudo muito exagerado, os médicos não fariam aquelas coisas sem motivo algum, eu só pensava como ele gosta de estar iludido, como é que vou convencer ele a enxergar a verdade??

Depois da primeira consulta que foi particular, passei a fazer meu pré-natal pelo SUS, já que o particular ficou claro que seria financeiramente inviável, e com o passar do tempo ficou claro que também não poderíamos pagar pelo parto, O fato de ter que fazer o parto pelo SUS me deixou apreensiva, a final tudo o que eu ouvia sobre partos realizados em hospitais públicos era da extrema violência com a qual as parturientes eram tratadas, procedimentos desnecessários sem autorização, agressões verbais e até mesmo físicas, eu tinha que fazer meu marido (a essa altura já havíamos nos casado) compreender a importância que o parto natural tem na saúde da mãe e do bebe, resolvi então mostrar a ele as recomendações da OMS, falar do aumento do risco de mortalidade para mãe e bebe em cesáreas.

Deu certo finalmente ele se interessou pelo assunto, e à medida que eu ia mostrando a ele mais coisas ele ia entendendo cada vez mais a importância e os benefícios da minha escolha.

Quando estava com 33 semanas de gestação entrei novamente em contato com a Katya para fazermos o curso de preparação para o parto, que esclareceu muito bem nossas duvidas, nos deu mais argumentos para defender nossa escolha, e fez meu marido perceber também quão fundamental era o apoio dele nisso. Quem diria, ele que quando me ouviu falar pela primeira vez de parto domiciliar disse imediatamente “você esta louca. Nem pensar”, agora lamentava o fato de não podermos ter um, (mesmo se conseguíssemos o dinheiro, as equipes de parto domiciliar são proibidas de atender na região metropolitana.), comentamos também com a Katya que embora quiséssemos não podíamos contratar uma Doula, ela então nos disse que poderia conversar com as outras Doulas do grupo Doula Curitiba e ver se alguma atenderia voluntariamente.

Foi assim que conhecemos a Gabriela, (eu já estava com 36 semanas de acordo com a US), fomos a uma das rodas de conversa do grupo Doula Curitiba, e de lá fomos almoçar com ela para conversarmos, ela nos deixou super a vontade, perguntou o que pretendíamos fazer durante o trabalho de parto quais eram os nossos planos, e nos disse também que se por acaso não ficássemos a vontade com ela se quiséssemos encontrar outra pessoa ela estaria feliz em ajudar. Bem nós nos identificamos muito com ela (alias acho que seria impossível alguém não gostar e se identificar com a Gabriela), ficamos em contato pelo fecebook e por celular, marcamos mais um encontro que dessa vez foi na nossa casa (nesse encontro eu já estava com 39 semanas pela US, e a Gabriela tinha descoberto que estava grávida também), depois de conversarmos decidimos que nosso plano seria ficar em casa o máximo de tempo que pudéssemos e ir para o hospital só quando já estivesse quase na hora da bebe nascer. Gabriela nos orientou sobre as muitas formas que poderíamos falar com a equipe do hospital para termos nossas escolhas respeitadas, nos contou algumas das suas experiências, e quanto mais conversávamos mais seguros o Bruno e eu nos sentíamos.

Dia 05/03/2014 (com 41 semanas pela US) as 03h30min acordo com uma contração, essa era diferente das de treinamento, era mais intensa, mas indolor voltei a dormir, meia hora depois mais uma.

_ Ok é hoje, Isabella vai nascer – Penso em chamar o Bruno, porem acho melhor esperar mais um pouco, vou voltar a dormir.

Vinte minutos depois mais uma contração, e assim foi até as 05h contrações em 20 ou 15 minutos, todas indolores. Acordei meu marido.

_ Amor, amor, B. Nossa filha vai nascer – Falei sorrindo. Ele me pergunta se preciso de alguma coisa, o que eu estou sentindo, explico que as contrações estão em intervalos longos ainda e indolores, mas eu sinto que é o trabalho de parto começando.

A pesar das contrações estarem super tranquilas, a ansiedade não me deixa dormir. Fico sentada na cama, Bruno voltou a dormir. Decidi mandar uma mensagem para a Gabriela para que ela visse quando acordasse, mandei um e-mail para os lideres da célula avisando que tinha chegado à hora.

São 07h não consigo mais ficar deitada, as contrações estão de 7 em 7 minutos, levanto e vou ao banheiro, vejo que boa parte do tampão saiu, acordo o Bruno.

_Amor o tampão saiu, não consigo mais ficar deitada. – Ele levanta, vai se vestir. Pedi que me trouxesse o telefone.

Ligo para a Irmã Marisa, uma grande amiga da família, benção de Deus em nossas vidas. Digo a ela que estou em trabalho de parto, e peço que oremos juntas, para que Deus prepare alguém para nos atender no hospital, para que minha filha pudesse vir ao mundo de forma natural, sem intervenções desnecessárias, como eu e meu esposo desejamos. (Afinal, sei como esta a realidade obstétrica no Brasil, e sei também que SOU CAPAZ de parir, e minha filha SABE NASCER, o que estava ao meu alcance eu fiz).

Desliguei o telefone e comecei a andar pela casa já que assim ficava mais confortável, liguei para minha mãe, disse que ia precisar do carro e que a Isabella ia nascer meu pai não estava então mandei uma mensagem pra ele dizendo pra vir pra minha casa.

Eu sabia que ela estava chegando, minha filha ia nascer naquele dia, eu finalmente estava em trabalho de parto, meu corpo estava trabalhando perfeitamente para trazer minha filha ao mundo, eu sentia cada mudança, cada evolução. Meu marido estava ao meu lado todo o tempo, me ajudando a marcar as contrações, me dando carinho, apoio, um verdadeiro companheiro. Estava tudo ocorrendo como deveria.

Decidi ligar para a Gabriela, nossa Doula – a essa altura eram umas 08:30 eu acho, e as contrações estavam começando a incomodar, porem ainda estavam de 7 em 7 minutos, falei com a Gabriela e decidimos que ela não precisava vir agora, íamos esperar que as contrações ficassem de 5 em 5 minutos.

Meu pai chegou e eu pedi a ele que fosse comprar croissant de frango pro meu café da manhã, meu marido já havia feito suco de laranja que eu pedi. Comi dois croissants e tomei uma jarra inteira de suco de laranja, isso com contrações de 6 em 6 minutos.

Sinto vontade de ir ao banheiro, ao senta no vaso sinto minha bolsa romper, fez um pleft, e ao contrario do que li na maioria dos relatos não saiu um monte de água. Sinto também minha filha baixar, e a cabeça encaixar ainda mais.

As contrações começam a ficar mais doloridas, como todos já saíram vou para o chuveiro, a água morna descendo pelas minhas costa é um alivio e uma sensação maravilhosa, peço ao Bruno pra ligar para a Gabriela e pedir a ela que venha, ele me traz o telefone e eu digo que não quero aquilo (rsrs), que é pra ele ligar, de repente ele volta acho que a Gabriela pediu pra falar comigo,não entendo direito, só digo que não quero falar no telefone.

Fico no chuveiro me balançando pra Lá e pra Cá, isso é tão bom que nem da pra descrever, o Bruno colocou a bola de exercícios dentro do Box pra mim, me apoio nela quando vem as contrações e depois que passam fico me balançando no chuveiro, as contrações agora doem um bocado, não sei mais em que ritmo estão e não me importo, também não sem que horas são ou a quanto tempo estou aqui, o relógio e a forma como ele conta o passar do tempo não fazem o menor sentido, tem algo errado com ele.

Lembro vagamente do Bruno andando pra Lá e pra Cá, lembro dele me perguntando se quero massagem, não tenho certeza se respondi e muito menos o que teria dito, em algum momento a Gabriela chega, vem conversar comigo no chuveiro, ela diz que eu estou linda (disso eu me lembro bem kkkkkk) e que estou bem com cara de quem vai parir. Incrível como ouvir isso me faz tão bem. Me pergunta também se eu comi, se quero beber alguma coisa, digo que quero uma água de coco, o Bruno vai preparar e a Gabriela sugere um canudo pois seria mais fácil para eu beber. Não temos canudo em casa então digo ao Bruno pra ligar na minha mãe e MANDAR meu pai trazer (kkkkkk sim a essa altura do campeonato eu mando em todo mundo e não estou nem ai, eles tem mais é que obedecer, eu sou o centro do universo, e o mundo gira em torno da minha barriga e da minha vagina kkkkkk). Logo depois surge o Bruno com a água de coco com canudo (rsrs) eu tomo um pouco, e em seguida vem uma contração muito forte, fico enjoada, digo que vou vomitar, Gabriela pergunta se quero um balde, eu digo que sim, o B vai procurar mais chega tarde, vomito no box mesmo, então a Gabriela pega uma bacia e joga água pra limpar.

As contrações doem muito agora, eu gemo, urro, grito, a cada uma delas, porem quando passa a contração, a sensação que vem depois é simplesmente maravilhosa,parece que eu estou flutuando, meu corpo todo fica leve, não sinto chão nenhum sob meus pés, aposto que se pudéssemos pisar em nuvens essa seria a sensação.

Peço ao B pra ficar comigo no Box, me penduro nele e danço levemente, depois peço massagem na lombar, como isso esta bom, estou amando cada momento, e de repente tudo muda, o chuveiro me incomoda, fico irritada e nem sei por que ou com o que. Tento ir pra cama, mas dói ficar deitada volto pro banheiro, acho que quero fazer coco então vou pro vaso, porem não faço nada, mas fica sentada ali me deixa confortável então decido ficar assim. Começo a sentir um medo estranho, isso me deixa ainda mais irritada,quando a contração vem eu grito NÃO, (quero gritar não vou desistir porem só sai o não), na próxima eu grito EU CONSIGO, preciso repetir isso pra me convencer, lembro da Gabriela dizer _ É claro que você consegue _ E mais alguma coisa que não me lembro direito.

O Bruno esta comigo o tempo todo, agarro os braços dele, puxo, aperto, mordo, a cada contração, ele e a Gabriela dizem coisas pra me encorajar, e isso me irrita, sinto vontade de jogar as coisas na cabeça deles, tento brigar com eles, mas quando abro a boca o único som que consigo emitir é um SHIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Isso me deixa mais irritada ainda (mas que droga por que não consigo brigar, e porque eles ficam dizendo isso, eu já sei). Eles continuaram me apoiando. Dizendo-me palavras de amor e incentivo.

As contrações estavam doendo muito e eu precisava encontrar uma forma de passar por elas, continuava sentada, me balançava de um lado para o outro pendurada nos braços do Bruno, e simplesmente começo a entoar uma melodia que vem de dentro de mim, uma melodia que reflete a perfeita sincronia entre meu corpo, minha mente, minha alma, e minha filha. Quando mais dolorida a contração mais alta, mais aguda sai a melodia.

Me canso de ficar sentada quero sair,o B e a Gabriela me ajudam levantar, as contrações estão muito próximas, e eu só consigo dar paços nos intervalos entre elas, intervalos esses que não duram muito tempo, digo que não quero mais que não aguento mais, a Gabriela me diz – Você aguenta sim,você esta indo muito bem. – ela diz mais alguma coisa que eu não consigo prestar atenção e diz também que já faz duas horas desde que eu falei que não aguentava mais pela primeira vez. (Eu já disse que não aguentava mais??) – eles conseguem me ajudar a chegar ate o quarto,eu me apoio na cama e fico ali, falo com minha filha, chamo por ela. Vem Isabella, Vem minha filha. Mais uma vez digo que não quero mais, que não aguento mais, A Gabriela me incentiva, diz que estou indo muito bem que esta tudo certo que são os hormônios que é assim mesmo, nesse momento eu brigo (finalmente rsrsrs) – NÃO QUERO MAIS HORMONIO NENHUM –Gabriela ri e diz – Mas é claro que queremos, você precisa deles, e você esta indo muito bem. – ela continua falando alguma coisa porém eu não estou mais ouvindo. Após mais uma contração eu vejo um pouco de sangue no chão, e me apavoro, peço para ir ao hospital, Gabriela conversa comigo, me pergunta se tenho certeza disso, me lembra que ao chegarmos ao hospital vamos fazer a mesma coisa que estamos fazendo em casa que é esperar pelo tempo da minha filha chegar naturalmente. E isso me lembra que no hospital a probabilidade que sejamos respeitadas é mínima. Sei que não é isso que eu quero, não quero ir ao hospital agora, então simplesmente me debruço sobre a cama novamente, Bruno e Gabriela ficam todo o tempo ao meu lado, esquentam a bolsa térmica que comprei pra Isabella e colocaram na minha lombar, a dor agora é muito intensa eu não prestava mais atenção no que eles diziam, só chamava pela minha filha, gritava por ela, Vem Isabella, Vem. Eu sentia que ela já estava chegando, que estava já estava no canal de parto, porem ao mesmo tempo tinha a sensação que levaria algum tempo inda.

Não sei por quanto tempo fiquei assim até que a Gabriela me perguntou se eu estava sentindo alguma vontade de fazer força, disse a ela que não, e no mesmo momento a vontade veio, fiz força, estava agachada ao lado da cama, ela me ajudou a me erguer, e perguntou ao Bruno se não era melhor irmos ao hospital agora, pois se demorasse muito eu poderia ter dificuldade pra me sentar, o Bruno concorda com ela e vai pegar uma roupa pra me vestir, (sim passei todo meu trabalho de parto nua, e sentia um calor imenso). Fico perguntando porque tenho que vestir, digo que não quero, Acho que a Gabriela tenta me fazer entender porque me vestir, não estou prestando atenção, as contrações continuam vindo só que agora me fazem ter vontade de fazer força, quando olho pra cima de novo vejo o Bruno com um vestido longo preto, sinto vontade de fazer ele comer aquele vestido, não vou vestir isso, só vou vestir o que minha mãe fez, é roxo e esta no varal, o Bruno pegou, ele e a Gabriela me vestiram, fomos pro carro, eu disse que não ia me sentar, colocaram toalhas no banco de traz e me ajudaram a subir no banco, fui de joelhos. A cada contração eu fazia mais força.

O hospital (o único na cidade, que atende partos) fica a 20 minutos de casa, ao chegarmos Bruno e Gabriela me ajudam a descer, meus passos são lentos, só consigo andar entre as contrações, ao nos ver chegar um homem se aproxima dizendo que deveriam pegar uma cadeira, digo a ele que não quero, tem um pouco de sangue nas minhas pernas e acho que isso assusta as pessoas. Quando entramos no hospital vamos direto para a sala de triagem onde uma medica diz para eles tirarem minha calcinha (eu não estou usando) e me colocarem na maca, digo que não posso me deitar, e ela repete que tenho que subir na maca, digo que não posso, e ela começa a gritar que tenho que subir na maca porque ela tem que examinar, pergunto o que ela quer examinar, ela só responde gritando que tem que examinar e que eu já passei na frente de duas mulheres (mas eu não passei na frente de ninguém minha bebe esta nascendo!!!), pergunto mais uma vez o que ela quer examinar e digo que esta nascendo,ela me ignora e continua gritando, me coloca na maca contra minha vontade com a ajuda de uma enfermeira, nem sequer me acomoda direito, fico com metade do quadril para fora da maca, ela grita para que eu abra as pernas, eu balanço a cabeça numa negativa e pergunto novamente o que ela quer examinar, digo que já esta nascendo, ela me ignora, a enfermeira abre minas pernas a força,e nesse momento enquanto eu digo que não, que já vai nascer, a medica me estupra. Ao colocar os dedos na minha vagina encontra a cabeça da minha filha, ai sim ela enlouquece de vez, ela e a enfermeira me largam e se não fosse a Gabriela me segurar e me ajudar a descer eu teria caído, elas trazem uma cadeira e a medica começa a gritar sem parar, eu digo que não consigo me sentar (não vou sentar na cabeça da mina filha) ela grita que tenho que sentar na cadeira,

_Ela não pode ir andando?? – Gabriela pergunta, e a medica responde gritando.

_NÃO ELA NÃO VAI AGUENTAR É MUITO LONGE.

Eu subo de joelhos e repito que não posso sentar.

_ MINHA ENFERMEIRA NÃO VAI LEVAR VOCÊ ASSIM PORQUE TEM QUE FAZER MUITA FORÇA – mais gritos. Decido ignorar

_ Me leva Bruno – Peço olhando para meu marido

Enquanto meu marido empurra a cadeira comigo de joelhos em cima dela, a medica continua berrando no meu ouvido – NÃO FAZ FORÇA, SE VOCÊ FIZER FORÇA VAI NASCER AQUI, ACRIANÇA VAI CAIR DE CABEÇA NOS SEUS PÉS E FICAR PENDURADA PELO CORDÃO. (deixa ver se eu entendi se eu fizer força à criança vai escorregar de uma vez só e cair nos meus pés? Se é tão fácil assim porque tantos médicos dizem às mulheres que elas não vão conseguir??? E só pra esclarecer, qual seria a outra opção que não ficar pendurada pelo cordão??? Eu só acho que se o cordão faz parte do corpo dela e do meu no momento, não da pra ela ficar de outro jeito né??)

Eu simplesmente ignorava aquela pessoa louca que berrava sem parar e sem motivo algum, e continuava a fazer o que meu corpo pedia.

Chegamos ao centro obstétrico, algumas enfermeiras vem até nós, não vejo mais a Gabriela, alguém segura o Bruno pelo braço e ordena em tom agressivo (sim ordena não pede) – Espera lá fora – Ele responde na mesma agressividade – Não. – A médica diz que ele não pode ficar ali, ele puxa a cadeira para traz e diz que nesse caso vai me levar de volta, a enfermeira que mandou ele ir para fora larga a cadeira e empurra o braço dele ao soltar,o que faz a cadeira chacoalhar, (sim eu ainda estou de joelhos em cima da cadeira e fazendo força). A médica segura o braço do Bruno e diz que ele não pode ir para onde estão as macas, porque há mulheres  em posições que ele não pode ver. Eles começam a discutir eu acho, não consigo prestar atenção, e também não consigo me concentrar no que meu corpo me pede pra fazer. Me abraço nos braços dele, digo que ele é meu marido e que vai ficar comigo, coloquem um campo estéril no chão que eu vou parir no chão (por essa definitivamente eles não esperavam). Acho que alguém esta questionando alguma coisa, ouço uma enfermeira dizer para colocarem um cobertor primeiro já que o chão esta muito frio, finalmente me ajudam a descer da cadeira, vou para o chão, alguém fica pedindo meus documentos para o Bruno, ele não parece estar muito bem, e estranhamente eu não me importo muito. Uma enfermeira se abaixa ao meu lado, e se apresenta, seu nome é Yolanda, ela me pergunta se pode auscultar o coração do bebe, (finalmente alguém que se lembra que eu sou um ser humano, e me respeita) digo a ela que sim, me diz que esta tudo bem, guarda e o aparelho e volta me pergunta se permito que seja colocado o acesso na minha mão para soro com ocitocina, (sim ela pergunta exatamente com essas palavras), respondo não, ela só diz ok, e me deixa (bem dita seja essa abençoada todos os dias da vida dela).

Ainda não consegui encontrar uma posição confortável, estou ajoelhada no chão, alguém se aproxima pro trás de mim sem dizer uma única palavra. Nesse momento sinto uma mão sendo colocada embaixo da minha roupa, bato no braço da pessoa e digo – NÃO ela já vai nascer. – não presto atenção a resposta, só sei que a pessoa resmunga algo.

Mais uma contração, tendo ficar em quatro apoios e fazer força, mas assim também não está funcionado, uma enfermeira se aproxima e diz que assim vai ser mais difícil, pergunta se eu não quero tentar ficar sentada. Respondo que sim. Elas nos ajudam. Meu marido senta no chão com as pernas abertas e eu me sento entre as pernas dele com as costas apoiadas em seu peito. Nem bem me acomodo e a medica vem na minha direção com os dois dedos indicadores levantados, percebo que ela quer abrir minha vagina, grito que não, ela me ignora, meu marido imediatamente coloca a mão na frente, bem no rosto dela e grita que não, finalmente ela se levanta e sai. La vem à vontade de fazer força de novo, empurro, Isabella começa a coroar, ouço as pessoas dizendo que já da pra ver o cabelinho, coloco a mão e sinto a cabeça da minha filha, os cabelos, abro um sorriso largo, de satisfação. E em seguida ouço a medica gritar – ESSA CRIANÇA VAI NASCER SEM OXIGENAÇÃO NO CÉREBRO. – Para o Bruno isso foi a gota d’agua, ele retruca imediatamente – CALA A BOCA SUA IDIOTA. – peço a ele para ter calma e ele me pergunta – você ouviu o que essa idiota disse? – respondo que sim, mas não tem problema nós sabemos que não é verdade. Em seguida a medica retruca que só esta dando a ele uma informação.

_ EU NÃO SOU NINGUÉM E TENHO MAIS INFORMAÇÃO DO QUE VOCÊ – o Bruno responde mais uma vez furioso. Digo a ele que fique calmo. – Eu preciso de calma agora meu bem – não me lembro dele ter respondido. E a medica ficou com raiva e foi para o outro lado onde tem uma parede, não a vejo mais, respiro aliviada, finalmente tenho paz desde que cheguei a esse hospital. E como mágica sinto mais um puxo, urro, e levando os quadris ao fazer uma grande força, a cabeça passa. Falo com minha filha – Só mais um pouquinho filha, só mais um pouquinho. Olho pra cima e vejo que quase toda a equipe do centro obstétrico esta parada formando uma meia lua a minha volta, nesse momento tenho a certeza que eles nunca viram uma mulher parir. Rio internamente ao sentir mais um puxo, faço outra força e sinto os ombros passarem, as pessoas da equipe do centro obstétrico olham umas para as outras e ficam perguntando – Cadê a Maria? cadê a Regina? – não entendo isso. A enfermeira Yolanda olha para eles e balança a cabeça, coloca as luvas e se ajoelha a minha frente, nesse momento penso que ela vai puxar meu bebe, e peço calma, ela simplesmente me olha nos olhos e coloca as mãos abaixo da minha filha, empurro levemente e o corpo dela desliza. Yolanda a ampara e imediatamente estendo os braços e digo – Me dá, me dá. – Ela me responde que só vai desenrolar o cordão. Tira as duas circulares e me entrega minha filha. Abro imediatamente os botões da parte de cima do robe e coloco minha filha sobre meu peito. Converso com ela digo o quanto a amo, o quanto ela é linda. Alguém pergunta a Yolanda se ela quer clampear o cordão, Bruno grita imediatamente – NÃO SÓ DEPOIS QUE PARAR DE PULSAR. – mais uma vez peço a ele que fique calmo, e volto a falar com nossa fila. Ele me abraça e chora, chora copiosamente, um choro tão emocionado como nunca pensei que ele fosse capaz (em sete anos juntos nunca o vi chorar). Ele me abraça, beija meu rosto e meu pescoço, repete constantemente – Eu te amo. Eu te amo tanto. Você é maravilhosa. É a mulher da minha vida. Olha só o que você fez. Eu te amo tanto.

Isabella abre os olhos e me olha, e vejo nesse olhar o reconhecimento imediato de quem sou eu, ela não chora em momento algum apenas olha para mim e para o pai, que ainda chora me abraça e me beija extremamente emocionado. E eu que sempre fui tão chorona e tão emotiva, sou agora apenas riso, um riso pleno, doce, saboroso e incomparável, e a constatação de que nesse momento nasce a nossa família. Eu e meu marido renascemos, e nossa família nasce junto com minha filha.

Alguém me pergunta se pode levar meu bebe, digo que vou ficar com ela só mais um pouquinho, e volto a curti-la, ela começa a movimentar a boquinha para sugar, coloco ela mais próxima ao meu seio e ela fica tentando pegar, tentando sugar, mais uma vez alguém me pergunta se pode levá-la e mais uma vez respondo – só mais um pouquinho – porem dessa vez levanto os olhos na direção da voz e vejo a pediatra com um pano nas mãos encostada na parede esperando, sorrio e volto o olhar para minha filha.

Ali naquele momento, sentada no chão, praticamente nua diante de todas aquelas pessoas, exposta, e com minha filha nos braços eu sou sem duvidas a criatura mais PODEROSA do mundo.

Mais uma vez a medica pergunta se pode levar Isabella, e dessa vez eu permito, só então o cordão é clampeado e cortado, e eu informo com minha filha ainda nos braços que não quero que seja colocado colírio, já que não tenho gonorreia sei que não é necessário, e também não quero a vitamina K, pois daremos via oral. Ela diz que tudo bem e pergunta se pode dar a vacina, digo que sim, ela leva a Isabella e o Bruno vai junto.

Yolanda pergunta se eu quero esperar a placenta sair sozinha ou se quero que seja tracionada, digo que vou esperar, ela então me examina, eu pergunto se vou precisar de ponto, se tem alguma laceração, ela diz que não, que só houve uma laceração mínima na mucosa e na parte superior, e ali não se da ponto pois não é necessário.

Começo a ter alguns tremores, pois o chão esta frio, as enfermeiras então arrumam um pano para por entre minhas pernas e me ajudam a levantar, caminho até a maca e subo nela sem precisar de ajuda. A maca é colocada em um canto estreito do centro obstétrico ao lado de outra maca, com uma mulher que também acabou de parir, entregam o bebe dela, e em seguida o Bruno volta com nossa filha, coloco ela no peito e ela mama por alguns minutos, ela é sem dúvida a coisa mais linda que já vi na vida. Yolanda volta a me examinar tem um cara que faz parte da equipe que parece estar pressionado ela para que tracione a placenta, ela me pergunta se pode e eu digo que vou esperar mais um pouco. Ouço ele brigar e reclamar que não pode ser assim que não pode ficar esperando, em seguida a psicóloga do hospital vem falar conosco.

Ela chega se apresenta e pergunta se eu sou a paciente que teve o parto diferente, respondo que meu parto não foi diferente, ela prontamente se corrige e diz que foi incomum e que talvez a equipe não estivesse preparada para isso. O Bruno olha pra ela e diz que isso (o despreparo da equipe) era nítido.

Ela me pergunta como eu tinha imaginado meu parto, eu digo que sempre imaginei o mais natural, sem nem um tipo de intervenção desnecessária. O Bruno completa dizendo que estudamos e nos preparamos muito para que tudo fosse o mais natural possível, pios sabíamos que isso era o melhor e mais saudável para mim e minha filha. Ela conversou um pouco mais conosco o que deixou bem claro que estava ai para tentar evitar futuros processos ao hospital.

RaquelAssim que a psicóloga saiu Yolanda veio perguntar novamente sobre a placenta, e como eu já estava cansada e não conseguia achar uma posição confortável para ficar com aquela tesoura pendurada na ponta do cordão, entreguei Isabella para o Bruno e a ela disse que podia tracionar, ela então chamou uma medica que me examinou com muito cuidado e disse que estava quase solta era só massagear. Yolanda começou a fazer a massagem no meu útero, mas estava doendo então ela perguntou se eu queria fazer, eu disse que sim e ela me mostrou onde massagear e me ensinou como fazer, enquanto eu massageava a medica puxou levemente e disse que tinha soltado ela enrolou o cordão na tesoura e me disse pra fazer um pouco de força. Fiz e a placenta saiu. Inclinei-me para ver e pedi para tocar, Yolanda me ofereceu uma luva e eu disse que não precisava. Peguei com a mão mesmo, era tão estranha, tinha gomos e varias veias que eu podia sentir do outro lado, o cordão que saia do meio dela era bem mais duro do que eu tinha imaginado. Ela me perguntou se poderia descartá-la, eu disse que sim, e em seguida perguntei se poderia tomar um banho, queria me lavar e tirar aquele sangue seco das minhas pernas, ela disse que tinha que esperar ir para o quarto, mas que me ajudaria a me limpar, pegou uma bolsa com uma água que estava bem fria, (na verdade mais parecia soro) e um pouco de gaze, molhou minha perna e minha mão e nós duas me limpamos o melhor que pudemos. Um tempo depois fomos para o quarto eu com minha filha nos braços e meu marido ao nosso lado, quando chegamos encontrei a Gabriela, eu queria tomar banho e como não tinha levado minha bolsa o Bruno teve que voltar para buscar, a enfermeira disse que eu poderia tomar banho se quisesse e ela me arrumaria algo para me enrolar,olhei para a Gabriela e perguntei se ela ficaria com a Isabella,(eu só confiava nela para deixar minha filha) ela sorriu e disse que sim tomei banho e me enrolei em um lençol me deitei ao dado da minha pequena eu não acreditava que tinha conseguido, o Bruno voltou tirou algumas fotos nossas depois que a Gabriela sugeriu que o fizéssemos. E naquele momento as outras pessoas no quarto deixaram de existir, éramos apenas Isabella, o Bruno eu e a Gabriela,exatamente como eu tinha imaginado.

Isabella nasceu com 38 semanas (e não 41 como a US indicava), um bebe pequeno com 2,800kg e 48cm, saudável e linda. Fomos para casa dia 8/05/2014 e Isabella saiu do hospital pesando os mesmos 2,800kg com os quais nasceu.

Agradeço a Deus todos os dias pelo presente maravilhoso que me deu. E quero aproveitar esse momento para agradecer especialmente a Katya e a Gabriela.

Muito obrigada por toda informação, e conhecimento que compartilharam conosco, por todo apoio e cuidado que nos dedicaram, não tenho nem palavras para expressar o quanto lhes sou grata. Peço a Deus que lhes retribua tudo àquilo que não posso. Pois se sou incapaz de expressar minha gratidão, que dirá retribuir tudo o que fizeram por nós.

Hoje quando finalmente termino de escrever esse relato minha pequena esta com 10 meses e 7 dias, forte, saudável, esperta e incrivelmente mais encantadora do que eu jamais imaginei.

Quanto à falta de oxigenação no cérebro acho que quem sofria disso era a medica.

 

Raquel Fernanda Sare – 12 de Janeiro de 2015

3 Comentários

  1. Fernanda disse:

    Caramba Raquel, que relato hein!
    Como pode o parto natural ser tão chocante assim?
    É tão natural e mesmo assim tão preconceituado, eu estou de 15 semanas e meu marido e minha GO só me deram a cesarea como opção, ao ler seu relato reforcei minha ideia de não discutir nem com ele, nem com ela, tenho a graça de possuir um convênio e meu parto poderá ser feito em um hospital que apoia e se orgulha de ter a maioria de seus partos normais.
    Mais a saúde no Brasil é uma vergonha eterna.
    Parabéns ao papai pelo apoio!

    • Raquel disse:

      Pois é Fernanda, na verdade não acho o parto natural chocante. Chocante é o quanto precisamos brigar para consegui-lo. Para ser bem sincera acho o parto maravilhoso, e mesmo tendo sofrido toda essa violência no hospital, estou decidida a ter mais 4 filhos.
      eu te aconselho a tentar informar seu esposo, mostrar a ele os estudos, as recomendações da OMS, não desista dele ainda, não precisa discutir também, tente ter conversas tranquilas com ele sobre o assunto, ter alguém que te apoie de verdade nesse momento é fundamental. Torso para que tudo corra bem e que vc tenha um parto com muito respeito e amor.

  2. Maria disse:

    Q lindo e emocionante!! Parabéns por ter conseguido!!!

Deixe um comentário

* Campos obrigatórios. Seu endereço de email não será publicado.